
A Bibliotecária Cleide Vieira de Faria (CRB-6/2314), responsável pela Biblioteca Central da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), juntamente com a professora Cíntia Azevedo Lourenço (CRB-6/2192) e o professor Frederico Cesar Mafra Pereira, da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (ECI/UFMG), publicaram, no dia 15 de maio, o artigo “Implementação da Resource Description And Access (RDA): aspectos relevantes para a gestão de bibliotecas” na RDBCI: Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação (v. 22, 2024).
Resource Description and Access (RDA) são diretrizes que orientam a criação de metadados dos recursos informacionais disponibilizados nos catálogos online das bibliotecas. O RDA traz um novo olhar para a catalogação e para os sistemas de gestão de bibliotecas, incentivando inclusive o abandono do MARC (a sigla significa Machine Readable Cataloging, ou “catalogação legível para computadores”), de forma que os OPACs (O catálogo de acesso público online, do inglês “online public acess catalog”) fiquem visíveis e integrados com outros repositórios da web.
Para saber mais sobre o RDA, o Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6) conversou com os pesquisadores a respeito do padrão de catalogação mais recente, desenvolvido para a web e com o foco no usuário. Confira a entrevista abaixo realizada com a professora Cíntia Azevedo Lourenço.
1) O Projeto 3R é uma forma curta de se referir ao Projeto de Reestruturação e Redesenho do Kit de Ferramentas RDA. O projeto rapidamente ficou conhecido como 3R: RDA, Reestruturação, Redesenho. O RDA tem um visual diferente devido a essa reestruturação e redesenho. Como o Brasil recebeu esse novo formato?
O visual e a organização das regras no RDA ganharam um formato totalmente diferente. Na primeira versão do RDA, as regras estavam organizadas em forma de seções, com capítulos, numa estrutura linear parecida com a estrutura de um livro mesmo. Além disso, as regras eram numeradas como acontecia no AACR2R. Esse formato dificultava ampliações e atualizações do RDA. Com o Projeto 3R, a ordenação numérica das normas desapareceu e a estrutura se tornou mais dinâmica, facilitando o relacionamento entre as regras, e a atualização da norma.
Não tenho notícia da opinião dos profissionais brasileiros a essa mudança. São poucos projetos de implementação que se tem notícia no Brasil. A maioria dos profissionais nem chegaram a conhecer o antigo RDA para opinar sobre o RDA 3R. Posso falar da minha percepção: o formato ficou muito melhor e menos assustador. Além disso, foram incluídas áreas de trabalho para os Bibliotecários para facilitar a organização local das regras mais usadas e das políticas de catalogação adotadas em cada instituição.
2) É verdade que o maior obstáculo para o uso amplo do RDA é o preço do acesso? Como você vê isso?
Nem tanto, pois o preço não é mensal, é anual. E existem valores para instituições de acordo com a quantidade de Bibliotecários que irão utilizar. Claro que para algumas instituições no Brasil será mais difícil, mas experiências relatadas em outros países, mostram que se nos organizarmos em consórcios de bibliotecas, esse custo pode ser dividido entre as instituições participantes.
Por exemplo, em instituições com um profissional, o valor anual é de 201 dólares (R$ 1.077 por ano). Acessos para 20 profissionais ou mais, fica em 170 dólares (R$ 911 por profissional). Já foi mais caro. O que percebo é que o custo tem caído.
Mas no III Encontro de RDA do Brasil, que aconteceu ano passado, algumas instituições públicas brasileiras que estavam iniciando a implementação relataram que o mais difícil está em adquirir a assinatura. Há muita burocracia por ser uma assinatura fora do Brasil.
3) Como os metadados são organizados para compartilhar o mesmo conjunto de elementos e garantir uma consistência fundamental que suporte a interoperabilidade dos dados?
Infelizmente, a maioria dos países da América latina, inclusive o Brasil, estão iniciando a implementação no próprio MARC. Dessa forma, essa interoperabilidade não muda quase nada, pois o MARC “engessa” toda a flexibilidade do RDA.
Mas em bibliotecas que já estão se implementando em outros padrões, as possibilidades de organização e interoperabilidade dos dados é infinita, e quem vai delimitar isso é uma decisão da própria instituição.
A OCLC já abandonou o MARC. Seu catálogo na web (WorldCat) já está disponível e mostra bem as possibilidades. A Biblioteca Nacional da Alemanha, já usava o Dublin Core em seu catálogo. Saíram do MARC a muito tempo, e já estão implementando o RDA em BIBFRAME, que é o padrão que a Library of Congress desenvolveu para substituir o MARC. Isso mesmo: a Library of Congress vai substituir o MARC!
4) Qual a importância do RDA estar alinhado aos modelos conceituais da IFLA?
Uma das deficiências do MARC está no seu projeto de sistemas: na época a modelagem de dados para projetos de sistemas ainda não existia, já que o MARC é da década de 60 e a primeira modelagem de dados é o MER (Modelo Entidade-Relacionamento) proposta por Peter Chen em 1975. Sem a modelagem de dados, os sistemas reproduziam o fazer manual e não ajudavam muito na otimização das rotinas que a informática permitiria.
Os modelos da IFLA trazem essa ferramenta para enfim projetarmos padrões de metadados que realmente executem as atividades de uma biblioteca ou outra unidade de informação, de forma otimizada e eficiente. O uso dos modelos conceituais da IFLA corrige uma deficiência nos projetos de sistemas de gerenciamento de bibliotecas e na execução das regras de catalogação, tornando essas ferramentas mais compatíveis com o ambiente tecnológico onde as bibliotecas estão inseridas na atualidade.
5) É possível codificar dados RDA usando esquema existente, como MARC 21?
Como já citei anteriormente, é o que muitas bibliotecas pelo mundo estão fazendo, principalmente as da América Latina e Brasil. Mas os textos científicos apontam que essa não é a melhor escolha, inclusive um artigo da própria Library of Congress.
O RDA pode ser usado nos mais diferentes padrões de metadados, mas se esse padrão utilizar o XML ou o RDF sua performance é muito mais completa.
Isso porque o MARC limita as possibilidades de integração e relacionamentos do RDA, ou seja, “engessa” a flexibilidade da nova norma. Mas infelizmente é o que as instituições estão conseguindo executar, principalmente devido ao custo de uma mudança ou melhoria dos sistemas utilizados nas bibliotecas. Talvez isso fique para um segundo momento.
6) A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde você atua, atualmente usa o MARC21. Há previsão de uso do RDA?
Sim, o Sistema de Bibliotecas da UFMG ainda utiliza o MARC21. Quanto à previsão de uso, a diretoria do Sistema de Bibliotecas tem realizado palestras com especialistas para iniciar o assunto entre seus Bibliotecários.




