Bibliotecas podem se valer delas para organizar acervos
Viajar é um dos grandes prazeres que tenho na minha vida! Quando estou de partida para algum lugar do mundo cujo idioma não é o meu e sequer consigo imaginar se gostarei ou não da comida, é porque realmente algo muito significativo me atraiu.
Sempre ouço dos filhos e de amigos muito preocupados: – Cuidado! Como será a comunicação? E a comida? E os perigos?
Respondo que sei atravessar ruas. Pararei no vermelho, prestarei atenção ao amarelo e seguirei em frente ao primeiro sinal do verde. E lá vou eu por este mundo cheio de encantos.
Este fato me fez lembrar uma questão bastante debatida na Biblioteconomia: a sinalização com cores – ou, como ouvi em uma palestra de que participei: a “infantilização” da Biblioteconomia ou das bibliotecas.
No fim da ditadura militar, lá estava eu no meu fazer biblioteconômico, atrás de balcões emprestando livros e cuidando para que voltassem para o seu lugar correto. Mas o país vivia um momento em que uma nação inteira queria saber dos bastidores da ditadura. Quando o acesso aos fatos e ao conhecimento era um grito sufocado por 20 anos.
Esse movimento, de alguma forma, se misturou às bibliotecas. O livre acesso nasceu e cresceu em velocidade impressionante. Não houve tempo para muitos estudos, apenas tempo suficiente para espalharmos cartazes com os dizeres: “Favor não recolocar livros nas estantes”. Fomos inocentes quando pensamos que seria o suficiente. Claro que os acervos eram recolocados nas estantes pelos usuários e passávamos muito tempo procurando este ou aquele livro perdido ou, simplesmente, escondido.
Quando o mundo resolveu sinalizar os acervos com cores, estava pensando em uma linguagem universal entendida desde a infância até a idade adulta. Outro fator talvez explique a decisão: em geral, quem zela pela limpeza das bibliotecas e seus acervos são mulheres e é sabido que o índice de mulheres daltônicas é bastante inferior ao de homens daltônicos.
Porque não valorizar esta mão de obra que continuamente está em contato com os acervos? Como não enxergá-la de forma contributiva? Este primeiro passo – separar o livro pela sinalização da cor –é tão significativo que, às vezes, representa cinco andares de estantes percorridas.
Bibliotecas do mundo inteiro usam deste mecanismo visual consolidado para sinalizar acervos e muito me surpreende que, no Brasil, ainda estejamos refletindo sobre isso. A utilização de sinalização por cores não infantiliza nossos acervos, seu papel nos processos de recuperação da informação é eficaz e entendido.
Necessário se faz que abandonemos nossos “pré” conceitos, ampliemos nossos horizontes e façamos uso de um recurso já adotado há mais de 50 anos em bibliotecas pelo mundo afora.
(Fotos: Carla Floriana Martins)







