Nos últimos cinco anos, o Brasil perdeu quase 800 Bibliotecas públicas. Os dados são do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), mantido pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo. As informações foram disponibilizadas para o público em reportagem da British Broadcasting Corporation (BBC), e os números de Minas Gerais e Espírito Santo são impressionantes: foram fechadas 180 bibliotecas públicas em cidades mineiras e 13 em municípios capixabas.
“Nossa maior tragédia é que as bibliotecas não existem no Brasil”, avalia a Dra. Marília de Abreu Martins de Paiva (CRB-6/2262), professora da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ex-presidenta do Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6). “Às vezes, o que eles chamam de biblioteca é uma casa cheia de livros velhos, com uma pessoa sem a mínima qualificação”, critica. Mesmo onde os espaços de leitura existem, muitos se tornaram defasados devido à falta de investimentos. É comum espaços com acervos desatualizados, empoeirados, sem atrativos e sem recursos financeiros. “São lugares sujos e precários, que não compram livros. Se fechar, ninguém nota. Nem é uma biblioteca de verdade”, opina Marília.
O efeito pandemia é outro artifício usado por gestores para esconder a falta de investimento. Várias bibliotecas fecharam durante o período de distanciamento social e muitas sequer propuseram atividades nos meios digitais, perdendo os laços com a comunidade, sendo lugares que não se reinventaram. Para Marília, a desatenção de alguns prefeitos costuma ser outro empecilho: “A ignorância dos gestores é nosso maior limitador”. Ter livros que abordam temas atuais e obras que viraram filme na Netflix, por exemplo, são formas eficazes de atrair a atenção da juventude, mas isso muitas vezes não ocorre.
Questionada sobre o fechamento de bibliotecas, Cleide Fernandes (CRB-6/2334), coordenadora do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de Minas Gerais (SEBP-MG), afirma que esses números podem não representar a realidade, por possuírem algumas dificuldades de organização e atualização dessa massa documental e de dados. Segundo ela, os dados do Sistema mostram que, em 2015, o número de bibliotecas mapeadas foi de 823 e, hoje, temos 839. O SEBP-MG envia chamados de cadastro e atualização de dados, que muitas vezes não são respondidos pelas prefeituras municipais, mesmo com ligações e pedidos oficiais de resposta, sendo elas as responsáveis pela atualização dos formulários.
Cleide informa que a tabela de bibliotecas públicas disponível para consulta no portal do SNBP é de 2021 e já sofreu alterações, pois os dados não são estanques, passando por atualizações a partir das informações prestadas pelos municípios. “Enviamos o formulário impresso para o gabinete dos prefeitos de todos os municípios, cobramos por e-mail e até fax solicitando devolutivas. Entretanto, é importante ressaltar que a ausência de resposta ao cadastro não significa que o município não tenha biblioteca, mas apenas que há uma lacuna nos dados”.
A equipe do SEBP-MG também faz busca de informações, quando identifica inconsistências. Assim, nesta data, existem 839 bibliotecas cadastradas. Mas cabe ressaltar que não se pode afirmar que todas estejam em pleno funcionamento, pois os efeitos da pandemia ainda não foram refletidos nos dados. Além disso, bibliotecas fecham temporariamente por vários motivos como reforma, ajuste de equipe, mudança de endereço etc.
Já no Estado do Espírito Santo, Marcelle Coelho Queiroz (CRB-6/621ES), coordenadora do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas do Espírito Santo (SEBP-ES) e gerente de Bibliotecas Públicas da Secretaria de Cultura do Espírito Santo (SECULT-ES), afirma que foram 13 as bibliotecas públicas fechadas. O número é menor se comparado ao número absoluto de bibliotecas fechadas em Minas Gerais, mas representa uma porcentagem muito maior de perdas para o local: o Estado possui apenas 78 bibliotecas públicas, sendo uma para cada município.
A dificuldade em mapear as bibliotecas e acompanhar suas evoluções e dificuldades, exige que novas soluções sejam buscadas. A Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas de Informação e Instituições (FEBAB), por exemplo, informou que está desenvolvendo sistemas próprios e investindo em plataformas para que o processo de cadastro e atualização das informações sobre as bibliotecas seja totalmente on-line.
Para Álamo Chaves (CRB-6/2790), presidente do CRB-6, essa situação é lamentável e requer o engajamento de toda sociedade. “A biblioteca pública, muitas vezes, é o único equipamento cultural disponível em pequenas cidades do interior. É o único espaço disponível para que o cidadão tenha acesso a lazer, entretenimento, cultura e conhecimento. Por isso, é importante que haja mobilização de todos para que essas bibliotecas não fechem as portas”. Álamo também diz que o Conselho vem buscando diálogo com o poder público em prol da manutenção das bibliotecas. “Em 2021 e 2022, o CRB-6 encaminhou ofícios para os prefeitos das cidades mineiras e capixabas alertando para a importância de os municípios manterem suas bibliotecas abertas, em pleno funcionamento e, obviamente, coordenadas por profissionais Bibliotecários, como prega a legislação”, afirma.





