Desde a vigência da Lei nº 15.100/2025 — que restringe o uso de celulares em aulas, recreios e intervalos, salvo em atividades pedagógicas ou emergências — as bibliotecas de Minas Gerais e do Espírito Santo têm recebido um público inesperado. Alunos que antes corriam para as telas agora buscam as estantes em busca de novas leituras.
A proposta vai além de simplesmente retirar os aparelhos: busca restabelecer a concentração, promover o bem-estar emocional e estimular a convivência. Para orientar essa transição, o Ministério da Educação (MEC) publicou guias com orientações práticas para escolas e redes de ensino, reforçando a autonomia institucional e o diálogo com famílias e professores.
Pesquisas recentes reforçam a receptividade da medida. Em outubro de 2024, o Datafolha apontou que 76% dos brasileiros consideram que o celular atrapalha mais do que ajuda no aprendizado, e 62% apoiam sua proibição nas escolas — índice que chega a 65% entre pais de crianças de até 12 anos. Já o Instituto Nexus registrou 86% de aprovação geral à restrição.
Movimento nas bibliotecas
Em escolas dos dois Estados da jurisdição do Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6), os efeitos dessa mudança já são perceptíveis. Em Cariacica (ES), a Bibliotecária Elaine Aparecida Costa Rodrigues (CRB-6/722ES), da Escola Municipal Talma Sarmento de Miranda, relata uma transformação no comportamento dos alunos. “Na hora do recreio, muitos alunos optam por ir para a biblioteca. Antes, iam para mexer no celular ou conversar. Agora, com a proibição, direcionam a atenção para os livros”, explica.

Elaine observa, ainda, um crescimento no interesse dos estudantes do 9º ano, que costumavam manter certa distância da literatura. “Eles têm procurado livros de biografias e obras com pano de fundo histórico. Mesmo com um nível de leitura ainda razoável, nota-se uma curiosidade crescente”, conta.
Em Belo Horizonte (MG), o Colégio Logosófico também viu o movimento aumentar. As Bibliotecárias Tanise Murta Nagem (CRB-6/3608) e Lucila Noronha de Carvalho (CRB-6/3637) informam que o número de alunos na biblioteca durante o recreio triplicou — de uma média de 5 para 15 estudantes.

“Temos relatos de alunos que voltaram à biblioteca depois de anos afastados, e de outros que começaram a ler pela primeira vez. Uma aluna nos disse que não leu nenhum livro no ano passado e, este ano, já leu seis”, compartilham.
Do estudo à descoberta literária
No Colégio Santo Antônio (CSA), também em Belo Horizonte, a bibliotecária Fabiana Lugão Paiva (CRB-6/2187) diz que, embora a biblioteca já fosse bastante usada para estudos, agora a leitura espontânea tem ganhado espaço:
“Percebi mais alunos lendo nos horários vagos, em momentos em que antes estariam no celular.”
Educadores têm visto esse movimento com entusiasmo, considerando o potencial da medida para resgatar o prazer pela leitura e fortalecer os vínculos sociais dentro das escolas. Além disso, a biblioteca tem sido um espaço de acolhimento emocional, especialmente para alunos com dificuldades de socialização.
“A biblioteca voltou a ser um espaço de convivência e aprendizado”
De acordo com Renata Alves Grego (CRB-6/2274), Bibliotecária da unidade SENAI na cidade de Varginha (MG), a proibição do uso de celulares nas escolas tem refletido diretamente no aumento da procura pelos espaços de leitura. “Desde a proibição, os alunos estão mais interessados em explorar todos os recursos da biblioteca. As áreas de estudo e leitura estão sendo mais utilizadas, e houve um crescimento no número de livros emprestados”, afirma. Ela explica que o ambiente oferece não só livros e computadores para fins pedagógicos, mas também jogos educativos que incentivam o raciocínio e a interação entre os estudantes.
Renata destaca ainda que a presença dos alunos se tornou mais constante e espontânea. “Muitos que antes só vinham acompanhando colegas agora comparecem por vontade própria”, observa. Para ela, a ausência das telas tem fortalecido os laços entre os frequentadores e os profissionais da biblioteca. “Estamos vivenciando trocas de experiências, de vida. A biblioteca voltou a ser um espaço de convivência e aprendizado”, resume.
Desafios e possibilidades
Apesar dos avanços, Bibliotecários alertam que o aumento da presença nas bibliotecas é só o começo. Para que a leitura se torne hábito, é fundamental investir em mediação, apoio pedagógico, formação docente e envolvimento das famílias.
Em meio a um cenário educacional cada vez mais desafiado pelas transformações digitais, a proibição parcial do uso de celulares nas escolas surge como uma tentativa equilibrada de aliar tecnologia e aprendizagem com mais consciência. E, aos poucos, reacende entre os jovens o antigo prazer de se perder — e se encontrar — nas páginas de um bom livro.




