
O Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região Minas Gerais e Espírito Santo (CRB-6) será representado pelo seu presidente, Álamo Chaves (CRB-6/2790), na abertura dos eventos conjuntos, no dia 26/8, às 18h. Os encontros destacam as conquistas e desafios da população negra no ambiente de trabalho.
Os eventos serão on-line, via plataforma virtual liberada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), instituição que coordena os encontros. Neste ano, os obstáculos dos Bibliotecários negros e antirracistas na construção de uma sociedade emancipada e comprometida com a diversidade serão tema dos debates.
À frente da coordenação do evento estão a Profa. Dra. Ana Paula Meneses Alves (CRB-6/3666), o Prof. Dr. Rubens Alves da Silva e a doutoranda Ma. Franciéle Carneiro Garcês da Silva, todos parte da Escola de Ciência da Informação (ECI/UFMG).
O CRB-6 conversou com os coordenadores e, assim como o trabalho de organização do evento foi realizado coletivamente, os docentes responderam as perguntas do Conselho conjuntamente.
– CRB-6: Qual é a importância do evento neste momento de intolerância no Brasil?
– Organização do evento: Este momento de intolerância, para ser reconhecido e combatido verdadeiramente pela população brasileira, precisa da formação educacional de um olhar crítico. Dentro e fora do Brasil, somos testemunhas de acontecimentos que nos traz a triste impressão de retrocesso civilizatório iminente em nossos tempos, quando a ascensão de grupos extremistas se manifesta agressivamente, disseminando o ódio e estimulando o reforço a práticas e atitudes de preconceito e intolerância étnico-racial. Todavia, é preciso não perder as esperanças e enfrentar com seriedade essa realidade em busca da superação desse problema, de amplitude mundial, não resolvido, atentando para complexidade envolvente.
Indiscutivelmente, movimentos ativistas como Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em tradução literal), #ÉCoisaDePreto, #meuprimeiroassédio, impulsionados nas redes sociais, assim como a ação de coletivos empenhados no combate a situações de vulnerabilidade social ampliados pela pandemia, têm se lançado ao desafio do enfrentamento desse problema do preconceito e da intolerância racial, cuja complexidade estrutural é descrita pela literatura crítica através das categorias necropolítica, epistemicídio, alterocídio e genocídio – tipos de violência física, simbólica e epistêmica que diuturnamente coloca em risco e, tantas vezes, interrompe vidas em meio à população negra e periférica – principalmente da juventude. Assumindo, portanto, essa referida intervenção ativista, o protagonismo da denúncia e suscitação do debate, conclamando a seriedade emergente da reflexão e ação coletiva.
A ressonância dessa movimentação se expande com fôlego no âmbito das universidades públicas brasileiras com a chegada e presença significativa de uma juventude negra. Ingressa, quase majoritariamente, pelo estímulo das cotas étnico-raciais e que traz consigo a marca da experiência da marginalização, exclusão e vulnerabilidades sociais e informacionais. Essa juventude atenta e conscientizada, por vias diversas, da sua condição objetiva e que cobra da academia uma ação educativa, instrutiva e pedagógica que possa contribuir para a formação de pessoas com pensamento crítico e sensibilidade ética para se empenhar na luta antirracista e anticolonial epistêmica, imprescindível para superação da intolerância étnico-racial no Brasil e no mundo. Essa juventude acadêmica, estudante de Biblioteconomia, que sabe da importância nos dias de hoje, de dar continuidade aos movimentos negros e pessoas negras em movimento que historicamente plantaram sementes no terreno acadêmico – com esperança de ser fértil.
Em nossa concepção, a pessoa bibliotecária tem um papel de grande relevância para apoiar diferentes iniciativas e difundir informações com foco no combate à intolerância. É nesse sentido que buscamos promover o debate, a reflexão e o compartilhamento de produções já emergentes no âmbito da Biblioteconomia e Ciências da Informação sobre a problemática da desigualdade, injustiças e os processos de violência social e simbólica.
Tais processos, assim como a desigualdade e a exclusão de pessoas e grupos étnico-raciais, têm raízes históricas e persistentes na sociedade brasileira e, por isso, eventos como o nosso reforçam a pertinência e relevância do desenvolvimento de estudos e pesquisas dessa realidade sob a ótica da informação, e contribuem para que, enquanto profissionais, possamos atuar adequada e efetivamente contra a intolerância sentida neste momento.
CRB-6 – Quais são as suas expectativas em relação ao encontro?
Organização do evento – O propósito do encontro, nacional e internacionalmente, é se constituir como um espaço público de reflexão, discussão, proposição e luta pela promoção da profissão bibliotecária e pela valorização das pessoas bibliotecárias negras e, também, das pessoas bibliotecárias antirracistas. Queremos e vamos de encontro a um momento de verdadeiros retrocessos em todos os âmbitos da sociedade brasileira, por isso nosso objetivo principal é evidenciar o protagonismo de pessoas bibliotecárias negras e antirracistas. Além disso, buscamos ações de engajamento em prol de melhores condições de emprego e trabalho, acesso à educação e à capacitação, enfrentamento e desconstrução do racismo institucional e estrutural, assim como ações voltadas para o fortalecimento identitário das populações de origem africana e da diáspora em bibliotecas e unidades de informação. Queremos consolidar um grupo de pesquisadoras e pesquisadores do campo da Ciência da Informação, da Biblioteconomia, da Arquivologia, da Museologia e de áreas afins, interessados na discussão da desigualdade e exclusão social no sentido ampliado (étnico-racial, gênero, classe etc), que venha reforçar o incentivo e o estímulo dessa produção de conhecimento e sua contribuição para a superação futura dessa violência estrutural, social e simbólica. Por isso, esperamos que os mais de 330 inscritos, até este momento no ENBNA/EIBNA, encontrem neste espaço e em nossa programação um diálogo crítico e de acolhimento a cada uma destas temáticas.
CRB-6 – O que vocês diriam para quem não acredita que uma sociedade antirracista é possível?
Organização do evento – Primeiro, precisamos dialogar mais sobre essa maneira de pensar, indagando o porquê dessa dúvida e de onde ela vem. Entendemos que a crença na impossibilidade de uma sociedade antirracista pode estar vinculada a dois perfis de pessoas: as que acreditam que o racismo não existe e aquelas que mesmo sabendo de sua existência tiram proveito para manutenção desta situação. No primeiro caso, podemos enquadrá-las como pessoas que exercem o que o autor Eduardo Bonilla-Silva chama de cegueira da cor. Por meio da invisibilidade da cor, essas pessoas retiram de si mesmas a responsabilidade de pensar criticamente sobre o racismo e continuam permitindo sua existência intrincada em nossa sociedade. Para o segundo caso, a manutenção da sociedade racista é uma vantagem. Ela mantém a exploração e dominação, mantém o poder de determinados grupos e estimula outros a aceitarem sua situação sem questionar. Em ambos os modos, não acreditar que uma sociedade antirracista seja possível, nos mantém, enquanto sociedade, em permanente estagnação e atraso. Nós acreditamos em uma sociedade em constante evolução, e que dentro dela, não há espaço para ser racista.
CRB-6 – Como a pessoa bibliotecária pode combater o racismo na profissão?
Organização do evento – Depende, em boa medida, do percurso e experiências propiciadas pelo processo de formação. Precisamos de pessoas bibliotecárias conscientes e críticas quanto ao seu papel enquanto profissionais, cidadãos e sujeitos da história. Profissionais preparados e conscientes do compromisso ético na atuação profissional e do seu protagonismo na mediação da informação. Para isso, as pessoas bibliotecárias precisam conhecer mais detalhadamente as discussões teóricas e práticas relacionadas às questões étnico-raciais, de gênero, justiça social e informacional, pelo olhar de pessoas negras, indígenas, com deficiência, LGBTQI+, mulheres, e de outras que estão à margem da sociedade. Dessa forma, será possível ouvir e reconhecer suas necessidades e aliar as suas ações aos contextos específicos dessas pessoas.
Confira a programação completa do evento que traz palestras, oficinas e mesas-redondas.
26/8
13h às 17h – Oficinas
13h às 17h – Apresentação de trabalhos e relatos de experiência, com mediação de Profa. Dra. Ana Cláudia Borges Campos Wenceslau (UFES)
18h – Abertura do evento, com Álamo Chaves, presidente do CRB-6
18h – Mesa-redonda
Tema: “Debates contemporâneos em Biblioteconomia e Ciência da Informação”
19h – Conferência de abertura 1
Tópico: “O branco ante a rebeldia do desejo: a branquitude e o pensamento social brasileiro”, com Prof. Dr. Lourenço Cardoso (UNILAB) e mediação de Ma. Franciéle Carneiro Garcês da Silva (UFMG)
20h – Conferência de abertura 2
Tópico: “Informação, sociedade e decolonialidade”, com Prof. Dr. Rubens Alves da Silva (UFMG) e mediação de Profa. Dra. Ana Paula Meneses Alves (UFMG)
21h – Conferência de abertura 3
Tópico: “Uma biblioteca pública pode ser muitas coisas, inclusive um lugar para se fincar raízes”, com Prof. Dr. Fabrício José Nascimento da Silveira (UFMG) e mediação da Ma. Nathália Lima Romeiro (UFMG)
27/8
13h às 17h – Apresentação de trabalhos e relatos de experiência, com mediação da Profa. Dra. Ana Cláudia Borges Campos Wenceslau (UFES)
18h – Mesa-redonda
Tema: “Debates contemporâneos em Biblioteconomia e Ciência da Informação”
18h – Tópico: “Descolonização da Organização e Representação da Informação e do Conhecimento na Biblioteconomia e Ciência da Informação”, com Prof. Dr. Marcio Ferreira da Silva (UFMA)
18h30 – Tópico: “Competência em informação e as questões étnico-raciais”, com a Profa. Dra. Ana Paula Meneses Alves (UFMG)
19h – Tópico: “Ensino para diversidade étnico-racial”, com Prof. Dr. Erinaldo Dias Valério (UFG)
19h30 – Tópico: “Protagonismo de mulheres negras na Biblioteconomia e Ciência da Informação”, com Profa. Dra. Leyde Klébia Rodrigues da Silva (UFBA) e mediação de Profa. Dra. Daniella Camara Pizarro (UDESC)
20h30 – Mesa-redonda
Tema: “Ações e estratégias para a comunidade negra”
20h30 – Tópico: “Informação para Saúde: o caso da Aliança Pró-Saúde da População Negra de São Paulo”, com Felipe Couto (Aliança Pró-Saúde da População Negra de São Paulo)
21h – Tópico: “Criação de conteúdo digital para a comunidade negra: a experiência do SoulCrespa”, com Dra. Cintia Santos (SoulCrespa)
21h30 – Tópico: “Literatura e população negra: o caso do projeto Mulheres negras na Biblioteca”, com Carine Souza e Juliane Sousa (Mulheres Negras na Biblioteca) e Mediação de Ms. Raphael Cavalcante (Presidente do CRB-1 e Bibliotecário da Câmara dos Deputados)
28/8
14h – Eixo
Tema: “Contexto Afro-Latino-Americano”, com mediação de Ms. Andreia Sousa da Silva (UDESC)
Tópico: “Perspectivas interculturais na Biblioteconomia e Ciência da Informação desde Abya Yala”, com Dra. Natalia Duque Cardona (Universidad de Antioquia – Colômbia)
Tópico: “La población negra y el acceso a la Bibliotecología y biblioteca en el Uruguay”, com Ms. Florencia Egaña Lachaga (Universidade da República – Uruguai)
16h – Eixo
Tema: “Contexto Africano”, com mediação de Dr. Gustavo Saldanha (IBICT/UFRJ/UNIRIO)
Tópico: “Formação bibliotecária no contexto africano: olhares de Guiné-Bissau”, com Ms. Iaguba Djalo (Biblioteca Pública e Arquivos Históricos Nacionais do INEP – Bissau, Guine-Bissau)
Tópico: “As mulheres em Moçambique e a literacia digital: oportunidades, problemas, programas e melhorias”, com Ms. Delfina Lázaro Mateus (Licenciatura em Biblioteconomia na Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane – Moçambique)
18h – Eixo
Tema: “Contexto Indígena Latino-Americano”, com mediação da Ma. Dávila Feitosa (UFPB/RERAD)
18h – Mesa-redonda
Tema: “Diálogos e resistências indígenas na Biblioteconomia e Ciência da Informação”
Tópico: “Representação bibliográfica de autoria indígena”, com Ms. Aline da Silva Franca (@biblio.indigena – USP)
Tópico: “Educação Escolar Indígena: saberes e (re)existências”, com Dra. Isabel Taukane (Ikadu – etnia Kurâ-Bakairi de Mato Grosso, Brasil)
20h – Eixo
Tema: “Contexto Biblioteconomia Negra Americana”, com mediação da Dra. Maria Aparecida Moura (Universidade dos Direitos Humanos ECI/UFMG)
Palestra de encerramento
Tópico: “Social Justice and Antiracist Library and Information Science”, com Kimberly Black-Parker, PhD (Chicago State University, Chicago/USA)
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