Melville Louis Kossuth Dewey, considerado o pai da biblioteconomia moderna, nasceu em 10 de dezembro de 1851 em Adams Center, Nova Iorque. Ele era o mais novo de cinco filhos e foi criado em uma família de poucos recursos financeiros, mas muito religiosa. A Dewey foi ensinado o valor do trabalho duro e da economia, o que o marcou pela vida inteira. Além disso, desde a infância, ele viu nos estudos não só a possibilidade para transformar sua vida, mas uma força para a transformação social.
Apesar das dificuldades financeiras da família, o que dificultou a educação básica de Dewey, ele entrou na Faculdade de Amherst aos 19 anos, em 1870. Durante a graduação, ele trabalhou como assistente na biblioteca da Faculdade e foi a partir desse momento que se iniciou a sua carreira como bibliotecário. Nesse período ele visitou diferentes bibliotecas a fim de identificar os métodos que as bibliotecas deveriam usar na organização do seu acervo e na prestação de seus serviços. Dewey identificou algo importante: as bibliotecas normalmente armazenavam os livros por meio de localização fixa nas estantes, ou seja, cada livro tinha um lugar físico fixo em estante e prateleiras específicas. Dewey percebeu como isso era custoso para as bibliotecas, pois à medida que seus acervos cresciam, cada livro precisava ser renumerado, o que custava tempo e dinheiro. Além disso, esse sistema gerava dispersão de livros com assuntos semelhantes pelo acervo, ao invés de mantê-los próximos uns dos outros. Notando tal limitação na disposição dos livros nos acervos das bibliotecas que visitou, Dewey concebeu um sistema de arquivamento por localização relativa. Isso significava que a localização dos livros não seria mais absoluta, isto é, ligada a determinada estante e prateleira, mas relativa ao seu assunto. Dessa forma, o livro passava a ganhar uma localização que é relativa também aos outros livros do acervo. Isso levou à criação da Classificação Decimal de Dewey (CDD), obra pela qual ele é reconhecido e lembrado mundialmente até os dias de hoje. Dewey começou a trabalhar na CDD aos 21 anos, em 1872, ainda enquanto trabalhava na Faculdade de Amherst, onde continuou a trabalhar por dois anos depois da formatura em 1874. Publicou seu sistema de classificação decimal em 1876, na obra intitulada A classification and subject index for cataloguing and arranging the books and pamphlets of a library, que foi um marco para a biblioteconomia moderna.
O sistema decimal não foi em si uma invenção de Dewey, posto que outros antes dele já o usavam, como Nathaniel B. Shurtleff[2] e o autor italiano Natale Battezzati[3], o último sendo citado por Dewey como fonte inspiradora no prefácio da primeira edição da CDD. Uma das ideias que Dewey pegou emprestado de Battezzati foi a de fichas catalográficas acompanhando as publicações[4], sendo então precursor da catalogação na fonte (Cataloging-in-Publication), que é algo recorrente nas publicações atuais. Dewey também se inspirou na classificação de W. T. Harris, da St. Louis Public Library e reconhece a ajuda de Charles Cutter e John Fiske ao fazerem sugestões e críticas construtivas ao seu sistema de classificação. Assim, Dewey não concebeu uma classificação totalmente original em sua estrutura, mas foi inovador em adotar e adaptar pontos fortes dos trabalhos de outros autores.
A CDD não foi o único legado de Dewey para a biblioteconomia, mas, ao contrário, suas contribuições foram variadas. No mesmo ano em que publicou seu sistema de classificação, ele ajudou a fundar a American Library Association (ALA) ao lado de Charles Ammi Cutter e outros mais de cem bibliotecários. Nessa instituição ele foi secretário de 1876 a 1890 e presidente de 1890 a 1891. Ainda em 1876, Dewey mudou-se para Boston, onde fundou o Library Bureau, companhia que tinha a intenção de vender provisões padronizadas para bibliotecas, como equipamentos (máquina de datilografar fichas catalográficas, por exemplo) e mobiliários (ficheiro para catálogos em fichas, estantes de livros, entre outros). No ano seguinte fundou a Library Journal, que tem publicação corrente até os dias de hoje. Em 1893 começou a trabalhar na Faculdade de Columbia (hoje Universidade de Columbia) na cidade de Nova Iorque e lá foi pioneiro no ensino da biblioteconomia, criando o primeiro curso de biblioteconomia em 1887. Além disso, em Columbia Dewey criou um catálogo sistemático e iniciou programas de instrução de usuários. A presença de mulheres no curso era algo louvável, haja vista que o Conselho da faculdade era contra. A insistência de Dewey para que aceitassem mulheres no curso lhe custou caro: em 1888, Dewey foi suspenso de suas atividades na Faculdade de Columbia.
Impressionado com seu trabalho, os diretores da Universidade do Estado de Nova Iorque, em Albany, ofereceram-lhe o cargo de bibliotecário na instituição. Logo o seu trabalho e empenho o levaram ao cargo de Diretor da Biblioteca Estadual, em 1889, cargo que ocupou até 1906. A saída da direção da biblioteca foi forçada e polêmica: acusavam o Lake Placid Club[5] de excluírem judeus e outros grupos minoritários, o que abalou a imagem de Dewey, pois o clube havia sido fundado por ele e a esposa em 1895. Em 1904, o Conselho Diretor da Biblioteca Estadual recebeu uma petição pedindo a retirada de Dewey do cargo de Diretor. Embora o Conselho não tenha votado por sua expulsão, eles declararam publicamente sua censura à suposta atitude de Dewey, o que o levou a renunciar ao cargo em 1º de janeiro de 1906, temendo por sua credibilidade. Há indícios, porém, de que esse infeliz acontecimento na vida de Dewey tenha sido manobra política de desafetos do bibliotecário que almejavam o poder que ele tinha.
Após janeiro de 1906, Melvil Dewey não parou totalmente de trabalhar na biblioteconomia, mas entrou em um estado de quase aposentadoria, pois não era mais o bibliotecário ativo de antes. Dewey morreu em 26 de dezembro de 1931 (Lake Placid, Nova Iorque) devido a um derrame cerebral, mas seu legado sobreviveu ao tempo e até hoje o sistema de classificação por ele inventado, a CDD, é o mais utilizado nas bibliotecas de todo o mundo. A biblioteconomia como é conhecida hoje deve muito ao trabalho de Dewey, que foi o responsável por iniciar uma formalização e maior padronização do ensino de biblioteconomia e das práticas bibliotecárias como um todo. Dewey era um entusiasta da profissão, mas, antes de tudo, um entusiasta da educação e reconhecia o papel central da biblioteca no ensino, promovendo e expandindo os serviços das bibliotecas onde trabalhou para diferentes públicos, como pessoas com deficiência visual, mulheres, crianças e até instituindo serviços de biblioteca itinerante, levando informação e conhecimento a quem não tinha acesso.
Fonte: Dia do Bibliotecário





