Um estudo realizado pelos Bibliotecários Orestes Trevisol Neto, Maria Lourdes Blatt Ohira e Daniella Camara Pizarro recentemente acendeu o alerta para um pilar preocupante na área da Biblioteconomia brasileira, a formação acadêmica oferecida pelas universidades parece não acompanhar o ritmo das necessidades do mercado escolar.
A pesquisa aponta que, apesar da previsão de criação do Sistema Nacional de Bibliotecas Escolares (SNBE), as matrizes curriculares de grandes instituições ainda apresentam baixa incidência de disciplinas específicas e obrigatórias sobre o tema.
O estudo evidencia um distanciamento entre as competências técnicas da Biblioteconomia e a base pedagógica necessária para o ambiente escolar. Instituições renomadas, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), foram citadas como exemplos de currículos que não possuem disciplinas obrigatórias com ênfase direta em “Biblioteca Escolar”.
Na UFMG, a disciplina “Leitura e Formação do Leitor”, embora essencial, é vista como genérica. O pesquisador Orestes fala de como foi conduzido o estudo e da importância da participação do Bibliotecário no projeto político-pedagógico. “Foram analisadas apenas as disciplinas que continham, em sua nomenclatura, o termo “biblioteca escolar”. Ainda que a disciplina “Leitura e Formação do Leitor” se relacione genericamente com a Biblioteca Escolar, ela não apresenta uma proposta formativa específica voltada a esse campo de atuação. Evidentemente, fomentar a leitura e formar leitores é algo intrínseco à Biblioteca Escolar e ao trabalho de seus profissionais. No entanto, entende-se que disciplinas de Biblioteca Escolar devem dialogar de forma mais direta e consistente com o campo da Educação, possibilitando a interação com professores e outros atores do espaço escolar, como psicólogos, assistentes sociais, entre outros. Além disso, é fundamental fomentar a participação do Bibliotecário no projeto político-pedagógico da escola, o que exige noções de práticas educativas, psicologia da educação, didática e outros fundamentos pedagógicos”, afirma.
No Espírito Santo, em municípios como Vila Velha e Vitória, o sucesso das bibliotecas escolares é notável, mas o estudo infere que isso se deve mais ao esforço individual dos profissionais da área do que à base da graduação, já que a UFES não possui disciplina obrigatória dedicada à biblioteca escolar. Para muitos profissionais capixabas, o caminho foi a busca por especializações por conta própria, de acordo com Orestes.
O pesquisador presta homenagem ao legado da professora mineira Bernadete Campello, cujas pesquisas fundamentaram os primeiros parâmetros normativos da área no Brasil e influenciaram resoluções do Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB). Entretanto, há um alerta sobre o “esvaziamento” de novos pesquisadores interessados no tema. Orestes fala dos reflexos do trabalho de Bernadete e faz um alerta sobre o “esvaziamento” de novos pesquisadores. “De extrema relevância, Bernadete Campello, mesmo aposentada, permanece como uma referência central na área de Bibliotecas Escolares no Brasil. Suas contribuições incluem uma produção científica consistente, a participação ativa em grupos de pesquisa especializados, a realização de revisões de literatura que mapearam o estado da arte da área e a identificação de lacunas teóricas e formativas na formação e na atuação profissional. Os primeiros parâmetros normativos da Biblioteca Escolar no Brasil são fruto de seu trabalho, que posteriormente influenciou resoluções do Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB). No entanto, observa-se a carência de pesquisadores, no campo da Ciência da Informação e da Biblioteconomia, com interesse efetivo na Biblioteca Escolar contemporânea”, conclui.
Por fim, a pesquisa associa o desinteresse pela área à fragilidade da formação inicial. Ao ser tratada como um tema periférico nos currículos, a Biblioteca Escolar sofre uma desvalorização simbólica. No Brasil, profissões ligadas à educação historicamente enfrentam desafios de reconhecimento social e institucional, o que torna a reforma das matrizes curriculares uma urgência não apenas acadêmica, mas política.
O Conselho Regional de Biblioteconomia 6º Região (CRB-6) reforça que a atuação qualificada no contexto escolar depende de uma formação que prepare o profissional para interagir com psicólogos, assistentes sociais e docentes, transformando a biblioteca no coração pulsante da escola.
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