Sebastião Carlos – “imortal” da Academia Mato-Grossense de Letras e autor de quase quarenta livros nas áreas jurídica, de história, literatura, ecologia e poesia – deseja que, na gestão de Leandro Carvalho à frente da Secretaria Estadual de Cultura, haja uma política do livro e de leitura. “Eu tenho a convicção que a leitura amplia, para todos, a visão do que é o mundo”, explica o escritor.
Fora seus livros jurídicos que foram publicados fora do Estado, todas suas obras são mato-grossenses. Sebastião Carlos acredita na necessidade de valorizar as riquezas de Mato Grosso que estão por trás da história e da literatura local.
O autor lamenta a desvalorização da Cultura, e encontra nos livros uma forma de resgatar tudo o que tem se perdido. Como no caso de seu ultimo livro, lançado no ano passado, o “Dicionário de Termos e Expressões” da gente mato-grossense, fruto de um trabalho de pesquisa que se prolongou por aproximadamente dez anos e que procura retratar a anatomia da fala da gente mato-grossense.
O livro traz uma análise sobre o linguajar de Mato Grosso, é o primeiro dicionário de falas desde a época dos bandeirantes até chegar à década de 60 e 70, quando se deu a chegada em massa dos gaúchos, paranaenses e catarinenses, que vieram no rastro da explosão da produção da soja.
Outros três livros estão sendo preparados pelo autor para futuro lançamento, dois sobre história e um reunindo críticas literárias. Nos de história, Sebastião Carlos teve a preocupação de recuperar assuntos que ainda não foram tratados por nenhum historiador, como os processos de impeachment que houve em Mato Grosso e a repercussão, em nosso Estado, do golpe militar de 1964, que resultou na deposição do presidente João Goulart e em um longo período de ditadura militar.
Sebastião Carlos Gomes é formado em História e Direito nas universidades federais de Goiás e Uberlândia, respectivamente, e carrega uma bagagem grande de cursos de especializações realizados em várias cidades, e outros países como Espanha e Estados Unidos. Atualmente, atua basicamente como advogado, mas pretende desacelerar o ritmo. “Pretendo escrever mais livros e aproveitar mais a vida”, declara.
Ele destaca a valorização da leitura e do livro e acha que qualquer leitura é importante, no primeiro momento, levando em consideração que o gosto pela leitura tem se perdido, principalmente entre a população mais jovem. Defende, todavia, que chega um momento em que é preciso selecionar a leitura.
Hoje seu foco tem se voltado para a história e a literatura regional, o que o tem inspirado a olhar de forma mais critica a situação cultural do nosso Estado, a começar pela estrutura da Secretaria Estadual de Cultura, que pouco tem contribuído na qualidade da leitura de nossa população.
“O governador Pedro Taques (PDT) fez a melhor escolha possível, o Leandro Carvalho é dos homens públicos mais brilhantes do Estado, não apenas pela formação acadêmica, mas pela visão que ele tem das coisas. Foi extremamente valiosa a escolha dele como secretário de Cultura, altamente positiva”, avalia o historiador que já sugeriu ao novo secretário, em um dos seus artigos publicados, que a política de leitura pode ser tão lucrativa quanto os outros seguimentos da cultura como a música, o teatro e o cinema.
Sebastião Carlos também já foi secretário de Cultura na época da Fundação Cultural, em 1987, e defende que o Conselho de Cultura necessita urgentemente de pessoas com olhar crítico, de uma equipe de leitores com uma visão mais ampla do processo cultural de Mato Grosso, com o objetivo de superar aquela fase em que os conselheiros eram colocados na secretaria através de esquema político.
Considera isso importante para que esses novos conselheiros possam selecionar com mais qualidade os projetos que a serem financiados pela secretaria. “Foi publicada muita porcaria com o dinheiro público”, destaca. “A secretaria precisa mudar o Conselho de Cultura tanto no critério de escolha dos membros, quanto no critério de utilização dos recursos”, completa.
A solução mais viável, em sua na visão, é a criação de bibliotecas ao menos na capital e nos polos mais importantes do Estado, bibliotecas municipais e bibliotecas nas escolas de forma a garantir o acesso de toda comunidade ao livro. E mais: defende que é preciso que, além das bibliotecas, sejam escolhidas para coordená-las pessoas comprometidas em conservá-las e em estimular a leitura, não somente a leitura acadêmica.
“Hoje lutamos conta uma força terrível que é a força de meios de comunicação como a televisão e a internet”, destaca. A falta de controle do uso desses dois principais meios é um grande desafio a ser enfrentado, ressalta, lembrando citando um poema do gaúcho Mário Quintana “Os livros não mudam o mundo. Os livros mudam as pessoas, as pessoas mudam o mundo.”
Fonte: Diário de Cuiabá




