Bibliotecas são substituidas por essas salas; especialistas divergem sobre a transição

Sala de leitura e biblioteca da EMEF, Escola Municipal de Ensino Lourdes de Oliveira Colnaghi (Foto: Quioshi Goto)
Dados do Censo Escolar 2013 compilados pelo Portal QEdu apontam que apenas 21% das 242 escolas bauruenses de educação básica, que abrange desde o ensino infantil até o médio, têm bibliotecas. O percentual é também um indicativo do processo de transição pelo qual os espaços tradicionais estão sendo submetidos. Grande parte das bibliotecas foi transformada em salas de leitura.
Mais baratas, elas são capazes de fomentar a leitura. No entanto, pecam em aspectos como a aprendizagem de pesquisa, afirmam seus críticos. De acordo com eles, ainda há fragilidade relativa às coleções de livros e a acervos videográficos, por exemplo.
Em muitos casos, as salas de leitura são alternativas à falta de espaços apropriados para bibliotecas, que também vem sendo substituídas por bibliografias via Internet, como os e-books. Essa última tendência é principalmente constatada na rede particular, onde a maioria das escolas (33%) tem bibliotecas.
Já na rede estadual, a situação é inversa, de acordo com os dados do Censo Escolar 2013 elaborados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Só 7% das instituições de ensino possuem biblioteca, cujo conceito utilizado prevê acervo de livros e bibliotecário. Já as salas de leitura estão em 71% das instituições de ensino estaduais. Segundo a Diretoria Regional de Ensino (DRE), Gina Sanchez, trata-se de uma tendência que começou há cinco anos.
“Nas escolas estaduais, as bibliotecas vem sendo substituídas por salas de leitura, que não são apenas locais de empréstimo e devolução de livros, mas proporcionam espaços físicos coordenados por professores responsáveis para incentivo a atividades de leitura, pesquisa, debates, gincanas e contação de histórias”, explica.
Vera Helena Geraige Zatiti e Silva, supervisora de ensino da DRE e responsável pelo programa Sala de Leitura, reitera que a iniciativa ocorre após a resolução 15, da Secretaria de Educação do Estado, datada de 2009, que dispõe sobre as salas de leitura. “Algumas escolas não têm espaço físico para bibliotecas ou salas de leitura, mas nenhum aluno fica sem ler, porque os acervos ficam disponíveis em caixas, carrinhos ou, até mesmo, prateleiras dentro das salas de aula”, defende.
Contraponto
Mas bibliotecas têm função mais ampla do que simplesmente empréstimo e devolução de livros, defende a professora do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, Helen de Castro Silva Casarin. Para ela, o espaço auxilia os alunos a lidarem com o universo informacional, além de fomentar a prática da leitura.
Helen explica ainda que essa amplitude de funções ofertadas pelas bibliotecas “não chega nem perto” daquelas proporcionadas pelas salas de leitura. “Porém, diante da triste realidade que enfrentamos no País, poucas escolas oferecem uma verdadeira biblioteca”.
Além disso, Helen relembra a Lei Federal 12.244, promulgada em 24 de maio de 2010, que dispõe sobre a necessidade de todas as escolas brasileiras contarem com bibliotecas, definidas como espaços em que haja coleção de livros, materiais videográficos, documentos registrados em qualquer suporte destinados a consulta, pesquisa, estudo ou leitura e bibliotecários. Se não houver revogação, todas as instituições do País têm de apresentar a estrutura até 2020. Por outro lado, como as instituições de ensino ainda têm seis anos para colocar em prática a lei, que ainda pode ser revogada, o cumprimento dela está longe de ser prioridade.
‘Em escola que não tem nada, essas salas acabam cumprindo o papel’
De acordo com a pedagoga e professora do Departamento de Educação da Unesp de Bauru, Vera Lúcia Messias Fialho Capellini, as salas de leitura cumprem papel de bibliotecas em escolas que não têm estrutura para abrigá-las. “O ideal seria que toda escola contasse com uma biblioteca bem equipada e uma sala de leitura para fazer com que os alunos ‘peguem gosto’ pelo universo dos livros. Porém, algumas instituições, instaladas em bairros que, com o tempo, passam a ser populosos, não têm espaço físico para tanto”, defende.
Além disso, a pedagoga pondera que trabalha há 15 anos na rede pública de ensino bauruense. “Muitas vezes, os locais destinados a bibliotecas se transformam em salas de aula e elas cumprem o papel de salas de leitura, com os acervos dispersos pelos espaços disponíveis. Não é o ideal, mas conseguimos incentivar os alunos a lerem mais”, confessa.
Diante disso, Vera acrescenta ainda que as salas de leitura exigem um investimento menor. “Nas salas de leitura, podemos colocar os acervos nos carrinhos, fazendo com que eles transitem pelas escolas. Podemos também colocar alguns tapetes e almofadas no chão e os livros dentro de caixas. Ou seja, conseguimos dar acesso à leitura, mas sem ocupar muito espaço, fato que não ocorre no caso das bibliotecas. Elas são imprescindíveis, mas na falta, as salas de leitura são a melhor solução”, finaliza a pedagoga.
Particulares
Em relação à rede particular, os dados apontam que apenas 32% das escolas particulares de educação básica de Bauru têm bibliotecas e 29%, salas de leitura. Questionado sobre os números, Gerson Trevizani, diretor regional do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieesp), também ficou surpreso. “Pelo que me consta, todas as grandes escolas particulares de Bauru têm bibliotecas e salas de leitura”, complementa.
Por outro lado, Trevizani afirma que as escolas particulares estão mais adaptadas às novas tecnologias, principalmente aos chamados e-books. “Hoje em dia, tudo gira em termos de livros mais modernos, como os e-books, em que os estudantes têm acesso à bibliografia via Internet e as escolas não precisam mais ter aquelas bibliotecas monstruosas”, constata o diretor.
Município
A Secretaria Municipal de Educação questionou os números do Inep compilados pelo QEdu. Embora a pesquisa tenha demonstrado que apenas 16% das escolas municipais de ensino básico têm bibliotecas e 11%, salas de leitura, Vera Casério, responsável pela pasta, informou que todas as escolas da rede possuem bibliotecas ou salas de leitura e, inclusive, algumas delas desenvolvem projetos com a participação dos familiares dos alunos.
Além disso, ela afirma que as 16 instituições de ensino fundamental têm bibliotecas, mas algumas delas também são adaptadas para salas de leitura.
Quanto às 64 escolas infantis, as salas de aula possuem um espaço destinado para os livros ou bibliotecas móveis. “Eu fico surpresa com as estatísticas. Inclusive, recentemente, recebemos um diploma do Ministério da Educação (MEC) dizendo que Bauru recebeu o selo Cidade Alfabetizada”, finaliza a secretária.
Fonte: JC Net | Cinthia Milanez




