A literatura tem o poder de transformar trajetórias e derrubar barreiras sociais e estruturais. Na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte (BPIJ-BH), essa premissa ganha vida diariamente por meio da atuação do Bibliotecário Wander Ferreira (CRB-6/2813). Deficiente visual, o profissional atua ativamente na formação de leitores, na mediação cultural e na democratização do acesso aos livros na capital mineira.
Sua história com as bibliotecas começou no início dos anos 1990, quando foi aprovado em concurso público para atuar como auxiliar na Biblioteca Pública de Betim, em Minas Gerais. Já apaixonado pelo universo dos livros, Wander encontrou ali um verdadeiro oásis e, incentivado pelos colegas de trabalho, decidiu formalizar sua vocação. Iniciou o curso superior na Escola de Biblioteconomia de Formiga (ESBI) e, posteriormente, concluiu sua graduação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Cursar o ensino superior nos anos 90, em um período anterior à popularização dos recursos de acessibilidade digital, exigiu de Wander perseverança e um forte espírito coletivo. “As tecnologias, hoje as grandes aliadas principalmente para pessoas com deficiências no acesso aos conteúdos das diversas disciplinas, não eram tantas, constituindo as maiores barreiras. Entretanto, minha interação com a maioria dos colegas de curso, tanto em Formiga quanto em Belo Horizonte, minimizou esses obstáculos. Os colegas sempre liam para mim ou também gravavam para que eu pudesse estudar posteriormente”, relembra.
Na BPIJ-BH, Wander integra o setor educativo da instituição ao lado de outro Bibliotecário, um técnico em literatura e uma pedagoga. Juntos, eles gerenciam projetos de formação, oficinas literárias, lançamentos de obras e visitas monitoradas. O Bibliotecário coordena há 15 anos a tradicional Roda de Leitura e reveza com a equipe a condução de projetos como Prosa Poética e Escrita Criativa, Manhã Encantada, Clube do Livro, A Quinta Leitura, Diálogos e Interações e o encontro mensal Jovens Leituras e Interações.
Em sua rotina de trabalho, Wander conta com o auxílio de ferramentas de acessibilidade, como software leitores de tela, scanner usado para digitalização e o piso tátil. No contato diário com crianças, jovens e adultos, Wander aposta na comunicação aberta e na empatia. “Classifico como acima da média. O fato de eu ser bastante comunicativo e sempre me apresentar mostrando minha condição de Bibliotecário primeiramente, e posteriormente de um Bibliotecário cego que busca dominar os conhecimentos, mas não tem medo de dizer que quando não tem certeza, vai buscar se informar”, afirma.
A trajetória e a atuação diária de Wander Ferreira evidenciam que a inclusão se constrói na prática, por meio da convivência, do acesso e do respeito às múltiplas formas de ler e interpretar o mundo. Ao aliar competência técnica, sensibilidade humana e recursos de acessibilidade à frente dos projetos da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, o Bibliotecário desconstrói estereótipos e se consolida como uma referência inspiradora para a categoria.




