A recente divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), realizada pelo Ministério da Educação (MEC), acendeu um alerta sobre a qualidade dos cursos de medicina no país, especialmente em Minas Gerais.
Das 12 faculdades mineiras avaliadas com desempenho insatisfatório, duas receberam nota 1 e dez obtiveram nota 2, índices considerados abaixo do esperado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Todas pertencem à rede privada de ensino.
Diante desse cenário, o presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6), Álamo Chaves (CRB-6/2790), chama atenção para um fator estrutural frequentemente negligenciado: a presença e as condições de atuação dos Bibliotecários nas instituições de ensino superior.
Falta de profissionais impacta qualidade do ensino
De acordo com levantamento do CRB-6, a maior parte dessas faculdades conta com apenas um único Bibliotecário para atender estudantes em todos os turnos — manhã, tarde e noite —, ao longo de toda a semana. Em alguns casos, o funcionamento das bibliotecas se estende também aos sábados.
Há ainda situações em que o mesmo profissional é responsável por mais de um campus, inclusive em cidades diferentes. Em um dos casos identificados, a instituição sequer possui Bibliotecário responsável pela biblioteca.
Segundo o presidente Álamo, esse modelo compromete diretamente a qualidade dos serviços oferecidos. “Ter um único Bibliotecário atuando em múltiplos turnos ou em mais de uma unidade simultaneamente é como ter um médico operando dois ou três pacientes ao mesmo tempo. O resultado não pode ser satisfatório”, afirma.
Bibliotecas são parte essencial da formação acadêmica
O Enamed avalia não apenas o desempenho dos estudantes, mas também aspectos estruturais das instituições, como gestão, corpo docente, instalações e recursos pedagógicos — entre eles, as bibliotecas.
Dentro das universidades, as bibliotecas desempenham papel estratégico na formação acadêmica, sendo responsáveis por garantir acesso à informação qualificada, bases de dados atualizadas, obras de referência e suporte à pesquisa científica.
O Bibliotecário, por sua vez, é o profissional legalmente habilitado para atuar na organização, curadoria e mediação da informação, além de orientar estudantes no desenvolvimento de trabalhos acadêmicos e no uso adequado de fontes científicas.
Exigência legal reforça necessidade de estrutura adequada
A importância da presença contínua desse profissional é respaldada pelo Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB), por meio da Resolução CFB n.º 246/2021, que estabelece a obrigatoriedade de Bibliotecários durante todo o período de funcionamento das bibliotecas.
Apesar disso, a realidade encontrada pelo CRB-6 demonstra um cenário de sobrecarga e insuficiência de profissionais, o que, na avaliação do presidente, compromete não apenas o atendimento, mas a própria formação dos estudantes.
Investimento, não custo
Para Álamo Chaves, é fundamental que as instituições revejam sua percepção sobre o papel das bibliotecas. “Bibliotecas precisam ser vistas como investimento e não como gasto. Esse é um elemento essencial para melhorar a qualidade dos cursos e proporcionar melhores experiências de aprendizagem aos estudantes”, afirma.
O posicionamento reforça a necessidade de alinhamento entre infraestrutura acadêmica e qualidade do ensino, especialmente em cursos da área da saúde, que exigem alto nível de formação técnica e científica.




