
Natural de Belo Horizonte (MG), a bibliotecária e professora Gabrielle Francinne de Souza Carvalho Tanus vive em Natal (RN) desde 2017, quando assumiu o cargo de docente na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Doutora em Ciência da Informação pela UFMG, Gabrielle tem se dedicado à formação de novos bibliotecários e à luta pelo fortalecimento das bibliotecas públicas e escolares no estado potiguar.
Sua atuação vai além da sala de aula. Na UFRN, além de ministrar disciplinas como “Biblioteca escolar e formação do leitor” e “Biblioteca pública e comunitária”, também coordena o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação e lidera o grupo de pesquisa “Estudos Críticos em Biblioteconomia e Ciência da Informação”.
Recentemente, Gabrielle lançou uma obra pelo selo Nyota, que reúne reflexões sobre o papel social das bibliotecas e a urgência de políticas públicas na área. A publicação dialoga diretamente com sua atuação prática, marcada pelo diagnóstico das bibliotecas escolares da rede estadual do RN — muitas delas sem bibliotecários ou estrutura adequada.
Em entrevista ao Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6), Gabrielle falou sobre os principais desafios encontrados durante o levantamento e reforçou a importância de investir na formação leitora e na valorização das bibliotecas como espaços de cidadania e inclusão.
CRB-6: Para começar, o que aborda seu livro e qual o objetivo dele?
O livro intitulado “Diagnóstico das bibliotecas escolares da rede pública estadual do Rio Grande do Norte: seriam elas bibliotecas?” traz uma pergunta provocativa no subtítulo que tem como objetivo já convidar ao leitor a refletir acerca das bibliotecas escolares. Há um grande desconhecimento acerca das potências de uma biblioteca escolar. Os professores readaptados buscam manter, de alguma maneira, a biblioteca aberta, mas o Estado não pode permitir a precarização das bibliotecas. Nossa proposta é discutir teoricamente a biblioteca escolar, a importância das políticas públicas, e demonstrar que não é qualquer coisa com nome de biblioteca na porta que é biblioteca. Biblioteca envolve prestação de serviços, realizada pela pessoa Bibliotecária, de modo a garantir sua gestão, envolvimento com a comunidade, desenvolvimento de projetos, serviços e produtos. Se a gente quer melhorar efetivamente a Educação, então, a gente precisa incluir a biblioteca neste projeto!
Desde a Lei Federal 12.244/2010, tem havido uma crescente movimentação de publicações na área da “Biblioteconomia Escolar”, inclusive muitos outros diagnósticos, e aproveito para destacar o trabalho realizado pelo Grupo de Estudo de Bibliotecas Escolares (GEBE) da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (ECI/UFMG), responsável pelos parâmetros, também as pesquisas de Goiás e Santa Catarina que serviram de inspiração na formulação do instrumento de coleta de dados. No apêndice do livro, listamos 55 trabalhos que buscaram realizar esses diagnósticos em diferentes localidades brasileiras. No âmbito do Estado do Rio Grande do Norte não havia, até a publicação do nosso livro, esse tipo de retrato das bibliotecas escolares; então, era necessário saber como elas estão. Para isso, fizemos um questionário online que foi enviado para todos os diretores das 587 escolas, vinculada às 16 Diretorias Regionais de Educação e Cultura (DIREC), tendo a representação de pelo menos três escolas por DIREC. Então, foi um trabalho bem amplo.
De modo geral, encontramos como resultados muitas escolas sem bibliotecas, outras com apenas “salas de leitura” (figura que existe em outros estados, que é uma invenção que parece criar um modo de continuarmos com bibliotecas sem Bibliotecários), e vimos que todas as bibliotecas não possuem profissionais no cargo de analista em Biblioteconomia. Encontramos resultados negativos em todas as dimensões propostas pelo GEBE: seja espaço físico; mobiliário e equipamentos; computadores; acervo; condições e organização do acervo; serviços e atividades; e, também pessoal). Adentrando um pouco mais na investigação, vimos que as bibliotecas são subutilizadas, isto é, não são amplamente acessadas pelos estudantes, professores e funcionários; em outras, seus espaços são reduzidos, ou têm com problemas de ventilação, isso em um estado cuja temperatura é alta, em toda estação.
Uma outra questão foi a dos acervos, vistos como insuficientes por seus gestores, os quais são organizados fora de padrões biblioteconômicos. E mais, muitas bibliotecas não apresentam sequer computadores para funcionários e/ou estudantes, outras oferecem poucos serviços, e isso sabemos que está intimamente relacionado ao fato de não ter o profissional especializado e formado para tais ofertas. Isso, entre muitas outras coisas que vocês poderão ver no livro, comprometem o impacto social, cultural e científico das bibliotecas escolares para a Educação brasileira. Por fim, um outro dado importante é que a grande maioria dos diretores/gestores, 96% deles, quando perguntados sobre a presença de Bibliotecários, eles são favoráveis à presença da pessoa Bibliotecária nas bibliotecas das escolas. Expressiva quantidade que não pode ser ignorada pela Secretaria de Educação, pelo Governo no Rio Grande do Norte.
CRB-6: No seu livro, você traça um panorama crítico das bibliotecas escolares no Rio Grande do Norte. Em sua opinião, quais são os 3 maiores desafios que as bibliotecas escolares enfrentam no Brasil como um todo, e como eles se comparam aos desafios específicos que você identificou no seu estudo?
Toda generalização é complicada, mas, a partir da experiência e da vivência em torno das bibliotecas escolares, eu diria que as dificuldades das bibliotecas nas escolas são muitas, inclusive bem mais que três desafios. Cada Estado tem sua realidade, difícil comparar Minas Gerais, que está com concurso para o cargo de Analista Educacional – especialidade Biblioteconomia, com o Estado do Rio Grande do Norte que ainda não tem sequer o cargo de Bibliotecário. Cada estado tem seu processo histórico e diferentes caminhos de concretização das políticas públicas. Tem estado e município que já conta com Sistema de Bibliotecas Escolares, embora estamos nacionalmente muito aquém do necessário e do esperado, pois, ainda a existência de sistemas é bem diminuta. No Rio Grande do Norte, o caminho tem sido árduo, cansativo, e, infelizmente, sem perspectivas de mudanças em um horizonte próximo, mas é nossa utopia, que nos coloca a lutar para que consigamos.
O discurso da responsabilidade fiscal tem sido utilizado aqui como impedimento para alterar essa realidade, e fazer cumprir a Lei nº 12.244/2010, em prol da universalização das bibliotecas escolares. Contudo, o poder público não pode comprometer a entrega de uma educação sem a biblioteca com o profissional especializado. Sem o profissional, como garantir um funcionamento pleno das bibliotecas escolares? A meu ver, como uma pessoa formada em Biblioteconomia, tendo trabalhado como Bibliotecária, e hoje, formadora desses profissionais, não há jeito ou solução sem a presença efetiva de Bibliotecários nas bibliotecas escolares. Então, os espaços nomeados de bibliotecas existem, mas apresentam as várias precariedades que encontramos pela pesquisa, daí que são muitos os caminhos de mudança propostos por nós, no livro: recursos humanos; gestão superior; acervo; espaço físico; funcionamento e acesso; organização do acervo; computador; material/equipamentos; recursos e investimentos; serviços e atividades. Veja, muitas necessidades, muitas frentes.
Então, nossa luta é múltipla, conexa e complexa, pois é para que as bibliotecas escolares continuem a existir nas escolas, como um local de encontros, com livros, com o conhecimento; suplementamos a luta para que elas existam nas escolas, tendo Bibliotecários como seus profissionais responsáveis; e para que estes possam contar com um sistema de bibliotecas, em redes integradas. Estas pautas estão correlacionadas à valorização do profissional, seja em sua formação continuada, seja também no fortalecimento das relações entre os Bibliotecários (caso eles passem a existir nas bibliotecas escolares), os auxiliares e os professores das escolas. Que são formas de valorização do cidadão, implicados no sistema de educação: profissionais e comunidade escolar. Isso tudo é fundamental para a criação de redes de compartilhamento de boas práticas, a fim de manter as escolas com todo seu potencial formativo, que está ligado à existência completa das bibliotecas escolares: seus espaços, seus profissionais, sua comunidade escolar. Processos, complexos, dinâmicos e permanentes.
CRB-6: A Lei Federal nº 12.244/2010, que trata da universalização das bibliotecas escolares, tem sido um marco importante, mas sua implementação ainda enfrenta obstáculos. Com base nas pesquisas para o livro, quais elementos você levantaria para que a agenda de implementação de bibliotecas escolares seja uma agenda positiva no Rio Grande do Norte e no país de forma geral?
A já referida lei federal conhecida como “universalização das bibliotecas escolares” está debutando neste ano de 2025, e sem festa! 15 anos com poucas conquistas nos estados e municípios, os quais são responsáveis pelo cumprimento, em específico, da Lei nº 12.244/2010 (atualizada pela Lei Federal nº 14.837/2024).
A luta pelo profissional dentro das escolas, em suas bibliotecas, geralmente, apontada por outros profissionais como uma luta apenas por emprego é, antes de tudo, uma luta para que as bibliotecas existam, funcionem, e possam impactar positivamente a educação. A biblioteca escolar é um direito da população. Não devemos ter vergonha ou nos abster dessa luta legítima, que está ancorada inclusive em uma legislação federal, que foi atualizada pela Lei nº 14.837/2024. Os professores da educação básica são bastante organizados nas lutas pela sua classe profissional, não é? Vejo isso como um ótimo exemplo. Inclusive precisamos trabalhar o movimento associativo desde a graduação, falta ainda muito letramento político na nossa área, que é, diga-se de passagem, vinculada intimamente com as políticas públicas da Educação, da Cultura, da Ciência, da Tecnologia e da Inovação. Bom, precisamos enquanto classe e área nos organizar para lutar essa luta juntos, em prol da melhoria da educação pública.
Como já dito, não basta ofertar um espaço com uma placa na porta com o nome de biblioteca. Biblioteca escolar deveria estar vinculada ao currículo, às atividades pedagógicas da escola, para que se possa ofertar seus serviços diversos, que são serviços que envolvem a leitura, a literatura, a escrita, a pesquisa, enquanto propostas desenvolvidas em diálogo com os professores. Ela deve funcionar durante todo o período de funcionamento da escola (inclusive aberta durante o período de recreio), o que geralmente não acontece, pela falta de gestores desse espaço, fundamentais para a melhoria dos processos de ensino e aprendizagem. Paulo Freire já apontava para a dimensão crítica da biblioteca, uma das nossas epígrafes do livro: “A compreensão crítica da alfabetização, que envolve a compreensão igualmente crítica da leitura, demanda a compreensão crítica da biblioteca”.
Na experiência concreta, professores e Bibliotecários deveriam ser parceiros, todos em prol da Educação, cada um a partir de sua formação. Assim, acredito cada vez mais que o tema da biblioteca escolar deveria estar presente nos cursos de Pedagogia e das Licenciaturas em geral, além do óbvio, de serem estudadas nos nossos cursos de Biblioteconomia. Destaco que, o diálogo com sindicatos de professores é também um caminho importante para nossas questões que envolvem as bibliotecas escolares e a pessoa Bibliotecária. A área da Biblioteconomia precisa se envolver com as políticas públicas e estamos num momento oportuno diante da aprovação do Plano Estadual da Educação (e do Plano Nacional da Educação), daí que é importante participar das reuniões e das audiências públicas, mesmo que não sejamos convidados a gente aparece porque são divulgadas tais ações em mídias sociais e realizadas em espaços públicos. Portanto, temos que forçar inclusive essa proximidade entre a Educação e a Biblioteconomia.
Por fim, gostaria de informar ao leitor que ao final do livro tem um projeto de lei para a criação do cargo de Bibliotecário e outro projeto de lei para a criação de biblioteca escolar, que, apesar de termos a lei federal não dispensa os estados e os munícipios a fortalecerem a institucionalização da biblioteca escolar via caminho legislativo. No âmbito municipal, nosso Projeto de Lei nº 649/2022, cuja ementa é: Dispõe sobre a obrigatoriedade de implantação de bibliotecas nas instituições de ensino público municipal e dá outras providências (Disponível em: https://sapl.natal.rn.leg.br/materia/25888) está na fila para votação do plenário na Câmara dos Vereadores de Natal.
CRB-6: Além da questão dos profissionais e da infraestrutura, como você avalia o papel da comunidade escolar (professores, alunos, pais) no fortalecimento das bibliotecas escolares? Que tipo de parcerias ou projetos poderiam ser desenvolvidos para aumentar o engajamento?
Biblioteca escolar não é uma ilha, portanto, essa abertura para a comunidade no seu sentido mais amplo é essencial, tanto a comunidade interna (estudantes, professores e funcionários) quanto a externa (comunidade em geral). O envolvimento concreto de todas as partes envolvidas fortalece os processos de ensino e aprendizagem. Fortalece os laços comunitários. No caso específico, as bibliotecas escolares podem estreitar os laços com os familiares via ações e projetos literários, como, por exemplo, a leitura dos adultos responsáveis com a turma no espaço da biblioteca. A gente fala tanto em pesquisa escolar, mas para que elas não continuem sendo atividades dissociadas da relação entre sala de aula e a biblioteca essa integração entre espaços e profissionais (professores e Bibliotecários) também precisa acontecer.
Trabalhos em parceira, em coletivo, envolvendo trocas de conhecimentos a favor dos processos é de uma generosidade que produz impactos na educação. Temos relatos de Bibliotecários que conseguem essa articulação com a família, com os professores, com a equipe pedagógica. Agora temos também outros tantos relatos de dificuldade desses alinhamentos. Não é fácil, mas é necessário a construção diária de relacionamentos. Tal qual a gestão democrática e participativa de uma escola, a biblioteca também precisa ser alinhada a esse princípio que inclua e torne todo mundo um pouco responsável pela biblioteca.
Todos os professores são corresponsáveis pelos usos e dinamização das bibliotecas (não só o professor de literatura, que é mais comum nesses espaços), daí que a proximidade da pessoa Bibliotecária nas reuniões pedagógicas, na sala dos professores, nos eventos da escola são caminhos de parecerias possíveis e necessárias. Não existe uma receita de bolo, depende do contexto, cabendo a sensibilidade, criatividade, persistência, resistência, paciência, desejo de construção da melhor relação profissional… Requer, portanto, além da presença profissional dos Bibliotecários, letramento sobre a biblioteca, poderíamos dizer, letramento biblioteconômico.
CRB-6: Quais parâmetros você sugere serem adotados para a atuação dos Bibliotecários nas bibliotecas escolares (por exemplo, 1 mesmo profissional poderia atender 2 ou 3 escolas? Ou somente 1? no caso de ser mais de uma escola, o parâmetro seria a distância entre elas? seria o número de alunos? por quantitativo de acervo? por carga horária?)
A resposta única e endossada pela lei é que cada biblioteca deve ter um Bibliotecário. Agora, os impedimentos para que isso aconteça são os mais variados, como apontamos no livro, mas não caberia ao Estado infringir uma legislação que é federal. No plano concreto, cada estado tem que fazer sua análise contextual, do que é possível e viável para que as coisas pelo menos comecem a acontecer. No caso do Rio Grande do Norte, a nossa batalha tem que ser por camadas, dada a nossa realidade, isto é, Bibliotecários devem ser lotados na Secretaria de Educação, no Núcleo do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, que já existe, mas que funciona sem Bibliotecários. É nosso desejo, a presença de pelo menos duas pessoas em todas as 16 DIREC, (o que daria 32 Bibliotecários para começar) para que eles possam iniciar a estruturação das bibliotecas e principiar a criação de um sistema de bibliotecas. Mas, é, obviamente, o ideal que todas as 587 escolas estaduais possam ter suas bibliotecas em pleno funcionamento, com a pessoa Bibliotecária em seus quadros. Parece que isso vai demorar, por aqui, diferentemente de vocês, de Minas Gerais, que estão um pouco mais avançados no processo, pois já começaram a ter a figura do analista em Biblioteconomia para as Superintendências Regionais de Ensino (SRE). Daí que estes Bibliotecários (dentro da estrutura) têm o compromisso, responsabilidade, missão de continuar lutando por mais Bibliotecários, inclusive em cada escola.
Gostaria de compartilhar a experiência que vivi e quando era auxiliar de biblioteca escolar, na Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). Por lá, cada Bibliotecário era responsável por 5 bibliotecas, que é um número muito alto, para coordenar. E posso dizer com toda certeza que isso é um problema porque a Bibliotecária acabava sendo uma espécie de consultora, isto é, visitava as bibliotecas para verificar modos de organização, mas não havia tempo para realizar um trabalho diferencial, nem tinha o sentimento de pertencimento a nenhuma delas. Estava ao mesmo tempo em todas, mas em nenhuma. Daí que a presença constante da pessoa Bibliotecária é fundamental para o conhecimento da comunidade escolar, para o envolvimento com a rotina da escola, com suas atividades, para a elaboração de projetos, o que requer planejamento, tempo e dedicação exclusiva. A biblioteca escolar precisa sair desse local do improviso de atividades, daí que o profissional responsável por gerir a biblioteca deve estar lá, todos os dias.
O discurso que não haveria Bibliotecários para todas as escolas não é impedimento para que os estados e municípios se mobilizem e realizem concursos com salários dignos de um profissional de nível superior, que são os Bibliotecários. Tem muito Bibliotecário querendo trabalhar, mas não encontra oportunidade, via concurso público, portanto, esse discurso tem servido mais para a imobilidade, para que os gestores das políticas públicas continuem se esquivando das suas responsabilidades, em mudar a realidade das escolas com bibliotecas sem os seus devidos profissionais. É fato que cada realidade envolverá um estudo para que a presença da pessoa Bibliotecária se efetive. Não tem sido uma negociação fácil. Mas não vamos desistir.
Ainda pensando nas ideias apresentadas na pergunta, posso dizer que essa associação de quantitativo (de livros e alunos) não sou favorável. Até porque não se tem controle de acervos, sem a presença de Bibliotecários; então, isso não tem lógica. E as escolas com poucos alunos não merecem ter uma escola plena? Voltando para uma solução mesmo que não ideal para que se parta de algum lugar, a distribuição de até 3 bibliotecas por proximidade me parece um discurso de primeira negociação, o que ainda pretendemos chegar. Seria importante perguntar para os Bibliotecários que estão atuando nas bibliotecas escolares país afora o que eles têm para dizer sobre isso. Algo a se fazer, e que pretendemos realizar. Uma comunidade de Bibliotecários que atuem nas bibliotecas escolares, numa rede de compartilhamento de informações, de aprendizados sobre outras experiências, inclusive a de lutar pela colocação profissional, nas escolas públicas brasileiras.
CRB-6: Como você enxerga o papel os Conselhos Regionais de Biblioteconomia de forma geral, do CRB-15, que abrange o Estado do Rio Grande do Norte, do CRB-6, seu conselho original, seja do Sistema CFB/CRB? Como o Sistema Conselhos de Biblioteconomia pode contribuir no cumprimento da universalização das bibliotecas escolares no país?
O trabalho é, como dissemos, coletivo, e envolve, portanto, os cursos de Biblioteconomia, os movimentos associativos, os estudantes, os egressos e a sociedade civil. Sem sombra de dúvidas, o Conselho Regional tem um papel fundamental, uma vez que só ele pode fiscalizar, para citar uma das funções. Esclareço que todo o trabalho de sensibilização e de diálogo tem sido feito com o executivo e com o legislativo. Teoricamente o caminho nem é extensivo: o Poder Executivo criar os cargos. O poder Legislativo realiza a aprovação do Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração dos servidores da Educação. O executivo realiza o concurso público. Bom, se tais instâncias quisessem realmente concretizar bibliotecas escolares com a pessoa Bibliotecária não precisaria de tantas idas e vindas em tantas reuniões, que já se estendem por alguns anos. Na verdade, essa luta vem de antes, parece-me que foram realizadas duas audiências públicas sobre o tema (e, infelizmente, até sem a presença de muitos dos nossos alunos). Não posso deixar de citar também o Comitê Norte-rio-grandense de Bibliotecários, criado recentemente por egressos que tem nos acompanhado em reuniões com a Secretaria de Educação e com parlamentares, e também tem feito um trabalho interessante junto aos estudantes de Biblioteconomia e nas mídias sociais (https://www.instagram.com/cnrb_oficial/) em prol das bibliotecas no Rio Grande do Norte.
Destaco que é importante a presença das instituições, em especial, do Conselho, nessa caminhada, e de maneira concreta, representando a área, fiscalizando, aplicando multa, fazendo seu papel, cumprindo sua missão. A luta, reitero, não é isolada. Sem o Conselho, a luta é mais difícil, por isso precisamos da atuação do Conselho Regional, que, no caso do Rio Grande do Norte, é da ordem de jurisdição do CRB-15. Ele tem tentado se articular por meio de diálogos com o Ministério Público, mas ainda sem nenhuma conquista concreta, no âmbito das nossas bibliotecas da rede pública estadual e municipal. Sabemos que a ação do CRB-15, em muitas escolas particulares na capital do Rio Grande do Norte, foi determinante para a exigência da contratação de Bibliotecários. Acreditamos, ainda, que os próximos passos envolvem o CRB-15 acionar o Ministério Público para que seja feita uma denúncia da situação das bibliotecas escolares, e com isso firmado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), com o estado do Rio Grande do Norte.
Em termos de comparação, não acho que seja produtivo comparar o trabalho dos Conselhos, porque isso é complexo. Sei que o CRB-15, por exemplo, sofre com o quantitativo de Bibliotecários registrados, e parece óbvio que isso pode ser correlacionado a falta de profissionais trabalhando na área. Ainda tem a questão dos inadimplentes. Essa falta de recursos certamente impacta a qualidade do trabalho de fiscalização, que requer, inclusive, o deslocamento para a realização do serviço, e me parece também que eles têm uma equipe de trabalho reduzida.
Quanto ao CRB-6, acompanho pelas mídias sociais que tem sido bastante atuante em relação ao trabalho de fiscalização nas bibliotecas escolares. O CRB-4 também publica em sua página um boletim informando as fiscalizações, apenas para citar dois exemplos. Daí que acho importante a divulgação do trabalho do Conselho com impactos reais, como a abertura de campos de trabalho para os Bibliotecários. Em suma, as instituições têm um peso maior, e quando os políticos e os gestores públicos percebem que somos uma área estruturada, inclusive com Conselho Regional e Federal, a conversa se fortalece e sai dos planos locais, de uma luta isolada, e passa a ser a de uma classe inteira.
Acredito que poderia haver uma aproximação mais forte entre os cursos de Biblioteconomia e os Conselhos Regionais e Federais (e vice-versa), sem procurar culpados nessa relação. Por exemplo, a campanha #SouBibliotecaEscolar, super bem estruturada com grande impacto social poderia ter marcado presença via Conselho Regional no curso de Biblioteconomia da UFRN. Infelizmente, muitos dos alunos sequer ficaram sabendo de toda essa importante movimentação, que ajudaria a eles entenderem o campo de luta e do movimento associativo. Ademais, como sugestão, nos encontros motivados pelo Conselho, penso que poderão trazer informações, trocas de experiências, inclusive a relacionada à criação de cargos, e conhecermos como cada região se encontra diante dessa questão da Lei nº 14.837/2024. Algo que poderia ser realizado por uma troca em fórum nacional, por exemplo. Uma campanha centrada na criação do Sistema de Bibliotecas Escolares, poderia ser tema de uma próxima articulação política e social. O Ministério da Educação (MEC) precisa sentir pressionado pelos nossos órgãos e entidade de classe.
Não poderia deixar de destacar que os materiais informativos: cartaz da biblioteca escolar, feito pelo CRB-4. Peguei vários no último Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação (CBBD), já pensando em distribuir nas reuniões e colar alguns nos murais da universidade – porque todos precisam saber da existência da lei. Peguei alguns folders e cartilhas de biblioteca escolar, disponibilizados pelo Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB), material que levo comigo, debaixo do braço, para entregar aos estudantes, nas reuniões. Então, veja que eu utilizo os materiais que são produzidos pelos Conselhos. As ações de várias formas (de material impresso às campanhas) do Conselho Regional e Federal são essenciais para a visibilidade e o fortalecimento da Biblioteconomia Brasileira.
CRB-6: Por fim, algum comentário?
Se é biblioteca tem que ter a pessoa Bibliotecária. Biblioteca é um direito de todos e dever do Estado. A participação de todos é indispensável para legitimar a luta. Vontade política é determinante para mudar a realidade. O problema da biblioteca escolar não é exclusivamente da Biblioteconomia, é da Educação, é das Licenciaturas, é de todos nós, da sociedade brasileira. Conselhos Regionais e Federal, a área precisa do apoio de vocês em várias frentes. Bibliotecários/as divulguem as boas práticas, fortaleçam as ações de divulgação e de impacto educacional e social que são realizadas nas bibliotecas das escolas.




