O desempenho dos estudantes brasileiros em leitura ainda está longe de ser equitativo. Um levantamento recente, com base nos dados do Estudo Internacional de Progresso em Leitura (PIRLS), escancara o abismo entre alunos de diferentes classes sociais no Brasil: enquanto 83,9% dos estudantes do 4º ano do ensino fundamental pertencentes a famílias de maior renda demonstram aprendizagem adequada em leitura, apenas 26,1% dos alunos em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica atingem esse mesmo patamar.
O Brasil registrou, entre os países participantes, a maior diferença de desempenho entre estudantes de classes sociais distintas: uma distância de 58 pontos percentuais. O dado é alarmante, especialmente quando se considera que mais da metade dos alunos brasileiros (64%) vivem em famílias com renda inferior a R$ 4 mil mensais — justamente o grupo com os piores índices de desempenho.
O dado reforça um cenário já conhecido por educadores e profissionais da área da leitura: a desigualdade de acesso à informação e ao apoio educacional afeta profundamente o desenvolvimento dos estudantes, limitando suas oportunidades futuras.
“As bibliotecas são imprescindíveis para a redução de desigualdades culturais e educacionais no Brasil”, afirma Marília de Abreu Martins de Paiva (CRB-6/2262), professora da Escola de Ciência da Informação da UFMG. Segundo ela, é essencial ampliar o número de bibliotecas públicas, especialmente em bairros periféricos e pequenas cidades, para garantir acesso à cultura e à leitura para toda a população, inclusive para quem ainda não está escolarizado.
Marília também defende a universalização das bibliotecas escolares, desde a educação infantil até a EJA. “Precisamos de bibliotecas de verdade, com equipe qualificada, orçamento, acervo atualizado e espaço adequado para atender cada nível de ensino”, ressalta. Para ela, esses ambientes são fundamentais para o desenvolvimento educacional e devem ser prioridade nas políticas públicas.
Leitura como base da aprendizagem
Quase 40% dos alunos brasileiros do 4º ano não dominam sequer as habilidades básicas de leitura. Esse déficit compromete a evolução escolar como um todo, já que a leitura é uma competência fundamental para o aprendizado em todas as áreas do conhecimento.
Nesse contexto, torna-se ainda mais evidente o papel estratégico dos Bibliotecários nas escolas e bibliotecas públicas. São esses profissionais que, atuando com mediação e curadoria, ajudam a despertar o gosto pela leitura, a orientar o uso crítico da informação e a ampliar o repertório dos estudantes, especialmente daqueles que não têm acesso a materiais de qualidade em casa.
Além disso, o estudo mostra que crianças que crescem em ambientes estimulantes, com presença de livros e adultos leitores, têm desempenho significativamente melhor. Por isso, a atuação dos Bibliotecários não se limita aos muros da biblioteca, mas alcança também as famílias e a comunidade, promovendo o hábito da leitura desde os primeiros anos de vida.
Desempenho desigual entre meninos e meninas
Outro ponto levantado pelo PIRLS é a diferença de desempenho entre os gêneros: os meninos demonstram maior dificuldade na leitura em comparação às meninas. O dado reforça a necessidade de ações direcionadas e políticas públicas que levem em conta essas especificidades, com foco na equidade e no estímulo à leitura como um direito básico de todas as crianças.




