
Como definir o amor que um pai sente pelo filho? A fim de compreender esse sentimento, o Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região Minas Gerais e Espírito Santo (CRB-6) conversou com quatro Bibliotecários que são pais.
Marcos Antônio Gracindo Paixão (CRB-6/955 ES)

Marcos Antônio entre as filhas e a neta / Foto: Arquivo Pessoal/Marcos Antônio
Entre os livros, Marcos Antônio Gracindo Paixão, atual Bibliotecário da Unidade Municipal de Ensino Fundamental (UMEF) Governador Christiano Dias Lopes Filho, em Vila Velha, no Espírito Santo, rememora as histórias que viveu ao lado das filhas Bárbara, de 24 anos; Ana Beatriz, de 19; Maria Luiza, de 15; e Lara, de 4 anos. Quando ainda tinha apenas as três primeiras, Marcos Antônio descobriu que a biblioteca era seu lugar e as levou para conhecê-la.
Era 2015 e acontecia na cidade o projeto “Amigo livro”, do coletivo homônimo, que reúne obras a preços populares e convida escritores para conversar com os participantes da iniciativa. “Na época, eu estava desempregado e, por isso, tinha mais tempo para estar com as minhas filhas. Em um desses momentos, decidi levá-las ao projeto, elas amaram e acabei fazendo isso mais vezes”, relembra o Bibliotecário.
Em tantas idas ao projeto, ele percebeu que não queria mais trilhar o caminho de volta e se envolveu no “Amigo livro”. Marcos montou um pequeno sebo itinerante, no qual selecionava as obras e as comercializava. Assim, as filhas sempre tinham um livro por perto em casa.
Os anos da graduação em Biblioteconomia na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) se prolongaram. O então estudante começou o curso em 2013 e, devido a questões pessoais, graduou-se após sete anos. “Atualmente, moro com a minha segunda esposa e minha filha Lara e mantenho contato com as três, seja por telefone ou presencialmente”, revela.
Ele ainda acrescenta que viveu inúmeros momentos em que ensinou e aprendeu muito com as filhas. “Quando a minha filha mais velha tinha por volta de 18 anos disse a ela que, se entrasse na faculdade, eu sairia do pé dela. Ela estudou, passou em Biologia, mas completou apenas dois semestres. Deveria ter falado que ela tinha que terminar o curso, né?”, brinca Marcos Antônio.
A história engraçada ensinou Marcos Antônio a ser mais consistente, o que aplicou nos estudos da filha Ana Beatriz. “Entre as meninas, ela é a que mais gosta de ler, sempre está com um livro embaixo do braço. Acho que isso a ajudou a entrar no Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), que está terminando agora, e estimulou a vontade dela em querer fazer uma faculdade. Dessa vez, eu disse que é preciso se formar”.
Sobre a terceira filha, Maria Luiza, o Bibliotecário lembra das incontáveis vezes que perdeu para ela nos jogos de tabuleiro. “Ela é muito competitiva, sempre vai atrás do que quer. Um desses objetivos, inclusive, parece ser sempre ganhar de mim nas partidas. Isso é uma coisa marcante na Maria Luiza”.
Os anos de aprendizado com as três primeiras filhas lapidaram Marcos Antônio para ser pai da caçula que, mesmo com apenas 4 anos, já vê o mundo cheio de cores graças às histórias que escuta do pai.
“Ela ama livros. Eu e minha companheira lemos muito para ela. Tenho um pequeno acervo de obras infantis em casa, a Lara folheia alguns”, conta.
O profissional viu as três primeiras filhas crescerem e agora assiste a Lara e os alunos da escola onde trabalha descobrirem mundos entre os livros. E, como todo bom Bibliotecário, Marcos Antônio está sempre lá para orientar e aprender.
O amor também é aprendizado.
Ronald Aguiar Nascimento (CRB-6/3116)

Ronald Aguiar e as filhas Laís, à esquerda, e Marcela, à direita / Foto: Arquivo Pessoal/Ronald Aguiar
Em 2005, o Bibliotecário Ronald Aguiar Nascimento morava próximo à casa de sua filha Marcela, que morava com a mãe, na cidade do Rio de Janeiro. Tudo mudou quando a esposa do Bibliotecário foi aprovada em um concurso público em Brasília, no Distrito Federal.
“Mudamos para lá em 2006. Eu, minha esposa e minha filha caçula, Laís. Ficamos seis meses distantes da família porque, naquela época, era difícil fazer a ponte aérea Brasília/Rio de Janeiro. Depois desse semestre, minha companheira teve a oportunidade de ir para Minas Gerais e, por ser mais perto da nossa cidade natal [Rio de Janeiro], fomos”.
No estado mineiro, Aguiar ficou mais próximo da família e da descoberta de um desejo que, até então, desconhecia. “Comecei a estudar para concursos públicos e passei no processo seletivo para atuar como assistente administrativo da Prefeitura de Esmeraldas. Na rotina profissional, acabei sendo deslocado para trabalhar na biblioteca que atendia todas as escolas da cidade”, conta.
O contato diário com os livros fez com que o hoje Bibliotecário trocasse a vontade de estudar Matemática pela Biblioteconomia. Aguiar se formou na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2012 e, ainda durante a graduação, foi selecionado para ser Bibliotecário no IFES, campus Cachoeiro do Itapemirim. A escolha pela cidade também foi feita pensando na família: o pai morava no município.
Aguiar, a esposa e a filha caçula moravam na Grande Vitória em 2012, mas como o Bibliotecário trabalhava a mais de 100 km do lar, passava apenas os fins de semana com a família. Marcela, a filha mais velha do Bibliotecário, também era figura presente no Espírito Santo, onde passava as férias e outros momentos com o pai. Em uma dessas visitas, a então adolescente demonstrou sua vontade de morar com a família paterna no estado capixaba.
“Esse foi um momento muito marcante para mim porque ela disse que queria vir para cá porque entendia que teria mais tranquilidade para estudar e percebia em minha trajetória um exemplo de quem conseguiu alcançar sonhos por meio da educação”.
Marcela formou-se no ensino médio e na hora de escolher a faculdade seguiu os mesmos passos do pai. “Ela queria fazer Serviço Social para ajudar as pessoas. Aceitei, mas contei a ela um pouco sobre a minha profissão, que também tem um papel comunitário muito forte e a Marcela acabou indo para a Biblioteconomia. No começo, confesso, ela não gostou, mas com o passar do tempo se apaixonou”.
O amor compartilhado pela profissão uniu ainda mais pai e filha. Marcela se formou em 2018 e, mais uma vez, Aguiar estava presente para comemorar. O mesmo aconteceu quando, três anos depois, ela se tornou mestre em Ciência da Informação pela UFES.
Hoje, atuando no campus de Vitória do IFES, Aguiar analisa os caminhos percorridos com as filhas em relação a sua profissão e acredita que a Biblioteconomia fez com que ele tivesse mais empatia para ouvir e buscar compreender Marcela e Laís. “A vida, definitivamente, é uma troca”, conclui o Bibliotecário.
O amor também é proximidade.
Rummenige Barbosa de Almeida (CRB-6/922 ES)

Rummenige Barbosa e os filhos em um dos seus momentos de diversão/Foto: Arquivo Pessoal/Rummenige Barbosa
Arquivista do jornal capixaba A Gazeta, Rummenige teve sua trajetória construída aos poucos em duas áreas que ele considera de fundamental importância: a profissional e familiar. Quando estava para se inscrever no vestibular da UFES, descobriu o curso de Biblioteconomia e, ao mesmo tempo, foi escolhido para ser pai de Natasha e Enzo, após processo de adoção, juntamente com Fábio Custódio, seu companheiro há dezesseis anos.
“Comecei a estudar Biblioteconomia, em 2012, sem saber muito sobre o que se tratava. Com o passar dos semestres, fui me apaixonando e não me imaginava em outra profissão. Consegui o estágio no jornal A Gazeta e, ainda durante o curso, fui contratado. Atualmente, sou responsável pelo arquivo jornalístico do veículo de comunicação”, explica Almeida.
Em relação à chegada dos filhos, o Bibliotecário é sucinto: “Eles são os meus bebês, é um amor eterno”. Enzo chegou ao lar dos pais em 2008 e dois anos depois foi a vez de Natasha integrar a família. “Antes mesmo da chegada dela, eu já sentia que seria pai de uma menina e a amaria muito”, garante o Bibliotecário.
A intuição se concretizou com o passar do tempo. Almeida e Custódio cuidaram e continuam cuidando dos filhos com todo carinho. Nos últimos anos, as fraldas e mamadeiras foram substituídas por idas à escola e deveres de casa. “Olhamos para cada um deles respeitando suas singularidades. O Enzo, por exemplo, tem dificuldade de aprendizagem e certo dia ele me disse que preferia não estudar quando recebíamos visitas porque ficava inseguro de errar algo da lição. Aprendemos com isso e passamos a fazer os deveres apenas em família”, revela.
O Bibliotecário, seu companheiro e os filhos enfrentaram o preconceito no início da formação da família, mas o convívio com pessoas de fora mostrou que “as crianças são muito felizes e vivem em um ambiente saudável. Defino nossa relação em três palavras: amor, vínculo e realização”.
O amor também é construção.
Valdivino Grasselli (Bacharel em Biblioteconomia)

Família Grasselli reunida com Luisa (à esquerda) e Letícia (à direita) ao fundo / Foto: Arquivo Pessoal/Valdivino Grasselli
Aos 52 anos Grasselli sentiu falta de algo que completasse sua vida. Vendo a realização da filha mais velha Letícia Aurora de Almeida Grasselli (CRB-6/905 ES) na Biblioteconomia, resolveu prestar vestibular na UFES e virou calouro da filha, em 2014.
Aos 59 anos, Grasselli conserva seu hábito de olhar a todos no fundo dos olhos e mantém seu bom humor típico. Foi assim que conquistou a turma no curso de Biblioteconomia da UFES, o diploma e a relação cheia de amor com as filhas Letícia e Luisa Grasselli, que estuda para entrar em uma instituição de ensino superior.
“No primeiro dia de aula, uma professora me perguntou por que eu tinha escolhido o curso, respondi que era pela facilidade em estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Ao final da graduação, ela me fez o questionamento novamente; disse quase a mesma coisa, mas acrescentei que durante o curso desenvolvi carinho pela profissão”, revela o Bacharel em Biblioteconomia.
O caminho de Grasselli durante a graduação não foi apenas de sentimentos bons. Enquanto produzia o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), sua mãe faleceu. O Bacharel em Biblioteconomia conta que a perda afetou não só seu humor. “Fiquei depressivo e, por isso, decidi dizer à minha orientadora que não conseguiria terminar o TCC. Ela respondeu que eu já havia entregue mais de 80 páginas e que, com uma lapidação, aquele material poderia ser apresentado”.
Com a força dada pela orientadora Maria Cristina Figueiredo Aguiar Guasti, Valdivino se formou e o TCC foi publicado como artigo. No dia da formatura, em 2020, ele recebeu o diploma ao lado da esposa e das filhas.
Quando pensa em momentos marcantes que passou com as filhas Letícia e Luísa, Grasselli não hesita: “Com certeza foram os momentos que as segurei no colo pela primeira vez. Hoje, elas já estão crescidas, mas sempre as verei como menininhas. Nossa relação é firmada em amor, carinho, afeição e sinceridade”, conclui Grasselli.
Amor também é se reconhecer.




