Não estou me referindo, porém, ao conjunto das atividades que configuram o projeto técnico das bibliotecas, que sei serem muitas – indo do ato de gerenciar as equipes das bibliotecas até as atividades que operam os processos de formação e desenvolvimento de coleções, independentemente dos assuntos e das mídias envolvidas; de tratamento e controle informacionais e de atendimento aos interesses e demandas dos usuários –, mas àquelas que responsabilizam o bibliotecário pela autonomização das pessoas por ele atendidas.
Entendo que o desafio de ser bibliotecário reside nessa expectativa, pois ela expressa a medida e a dimensão que justificama sua existência como profissional. Significa que nenhuma pessoa física ou jurídica pode ser considerada como tal apenas por existir, já que essa existência precisa ser objetivada. Implica que para ser bibliotecário não basta ser bacharel em Biblioteconomia, ou apenas possuir registro profissional,é necessário compromisso com a formação cultural e a autonomização das pessoas. Sem isso a sua existência se esvazia de significado e de sentido.
Se pensarmos nos dispositivos da Lei nº. 13.146, de 6 de julho de 2015, que instituiu o Estatuto da Pessoa com Deficiência e entrou em vigor a partir de janeiro deste ano, há que se admitir que esse desafio ficou ainda maior, visto que a finalidade desta Lei é assegurar e promover o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais da pessoa com deficiência, com vistas à sua inclusão social e cidadania. Portanto, desde janeiro o bibliotecário está obrigado a ofertar serviços e atender todas as pessoas em condições de igualdade, independente de suas condições físicas ou intelectuais.
Por isso, desde então, todos os produtos, ambientes e programas concebidos para uso humano, inclusive as tecnologias assistivas voltadas para as pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, visando à sua autonomia, qualidade de vida e inclusão social, estão vinculados ao conceito universal de acessibilidade. Conceito que o bibliotecário deve traduzir como biblioteca para todos, o que implica a existência de instalações, mobiliários e serviços livres de barreiras atitudinais ou comportamentais que limitem ou impeçam a participação, fruição e exercício de direitos de liberdade de movimento e de expressão, comunicação, acesso à informação, compreensão dos conteúdos e de circulação com segurança, e não apenas para as pessoas com deficiências.
Os desafios presentes e futuros são enormes, mas o bibliotecário brasileiro vai superar mais este, aliás, como vem superando os desafios dos baixos salários e das condições nem sempre adequadas para o desempenho da sua função e para o cumprimento das suas responsabilidades sociais e políticas, para além das barreiras físicas.
Por isso, nesta oportunidade, a 17ª. Gestão do CFB rende homenagens e agradece aos bibliotecários brasileiros, não só pelos avanços profissionais e de representatividade que a categoria conquistou ao longo dessa caminhada, que se iniciou em 1962, mas, sobretudo, pela certeza de que seguiremos firmes e coesos em direção a muitas outras conquistas.
Thiago de Melo, poeta amazonense e cidadão do mundo, afirmou certa vez em um de seus poemas que não tinha um caminho novo, que o que ele tinha de novo era o jeito de caminhar. Parodiando o poeta, faço minhas as suas palavras: pois entendo que não precisamos deixar de ser Biblioteconomia e bibliotecário para servir bem à sociedade brasileira; o que precisamos é ajustar o nosso fazer biblioteconômico aos interesses e às necessidades e demandas das pessoas atendidas por nós.
Parabéns a todos.
Raimundo Martins de Lima
Presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia




