Professora de língua portuguesa organiza concursos literários e clube de leitura com livros doados em Palmeira dos Índios, interior de Alagoas
“Eu vejo as ligações, as mensagens e às vezes não consigo responder a todas”, se desculpa Vanusia Amorim, professora de rotina puxada, que acaba de sair de uma reunião com uma mãe de aluno. Há 10 anos, na contramão de muitos educadores que abandonam o magistério, ela trocou o escritório pela sala de aula e, desde então, mantem uma agenda concorrida. O motivo: os livros.
Vanusia se desdobra entre projetos e compromissos ligados à leitura: concursos literários, clube do livro, sarau e promoção regular de encontros com escritores. Tudo isso acontece no Instituto Federal de Alagoas (Ifal), onde ela leciona no ensino técnico integrado – mistura de disciplinas do Ensino Médio com disciplinas do curso de Edificações.
Ainda no caminho contrário da maioria, Vanusia deixa semanalmente a capital, Maceió, para lecionar em Palmeira dos Índios, interior de Alagoas, a 140km da capital. A professora percorre a distância com alegria: “com tantos compromissos, estou ficando mais por aqui do que em casa”, brinca. E nem mesmo a saudade dos familiares diminui o entusiasmo da professora. “Porque eu trabalho com leitura e ela amplia meu mundo. Se não estou aqui, estou onde está acontecendo cultura”.
Formada em 2005, ela conta que começou a carreira trabalhando voluntariamente no ensino noturno de escolas estaduais para cobrir a falta de docentes, um problema crônico em Alagoas, explica. Quando chegou ao Ifal, em 2009, deu inicio ao trabalho com projetos para articular o ensino da língua à proposta de formação integrada.
Uma das primeiras iniciativas, nascida de forma intuitiva, como explica a professora, foi o projeto “Cartas Para Eles e Para Elas”- uma maneira de conectar escrita e cidadania. Nele, os estudantes escrevem cartas para personalidades públicas ilustres, como a presidente Dilma.
Cidade de escritores
Mas as atividades de escrita escaparam às quatro paredes. Palmeira dos Índios é a cidade em que Graciliano Ramos, o consagrado escritor de Vidas Secas, viveu, da qual foi prefeito e onde, mais tarde, nasceria seu filho e também escritor Ricardo Ramos. O literato é tema deste ano do concurso “O Jovem Escritor”, cuja organização conta com a professora Vanusia.
O concurso está na 5ª edição e, a cada ano, homenageia escritores alagoanos. “É uma questão de valorização de patrimônio histórico- cultural”, pontua a docente. Os livros que premiam os vencedores revelam a natureza do trabalho de Vanusia, uma busca incansável por ampliar e fomentar a leitura e a escrita. Ela busca e recebe doações de livros, organiza encontros, articula e participa de eventos literários e culturais, além de promover os concursos.
Além de livros, nesse ano, a escola também apoiará a ida dos vencedores à Bienal Internacional do Livro de Alagoas. Em outro concurso de redação, os alunos podem ir mais longe, pois o prêmio é uma viagem à Feira Literária de Parati (Flip), no Rio de Janeiro. “Nosso campus fica em uma região agreste de Alagoas. Eles não têm quase contato com cultura e lazer. Ir para livrarias ou bienais os deixam eufóricos, é uma forma de entrar em contato com o universo da leitura”.
Nem mesmo nos finais de ano, os alunos da Ifal deixam de pensar nas letras. Em dezembro, os estudantes participam de um sarau, evento artístico que reúne leitura, dramatização, sorteio de livros e encontro com escritores.
Passarinhando livros
Vanusia tem orgulho do que faz pelos concursos, mas nada imprime alegria tão sonora em sua voz quanto o Clube de Leitura Passarinhar. Ali, os alunos discutem literatura, segundo a educadora, uma reivindicação dos próprios estudantes. “O clube é democrático. Não existe a burocracia de pegar livro, como em uma biblioteca. O aluno lê no seu ritmo”, conta. Além disso, o clube tem um espaço físico e virtual destinado ao abrigo do acervo e às rodas de leitura.
O clube reúne hoje mais de mil livros, doações arrecadadas pela professora de escritores, editoras e leitores de todo país. Entre os ilustres doadores estão a escritora Talita Rebouças e o desenhista Maurício de Souza.
Todo empenho da educadora se resume em uma convicção: “a leitura literária é mais transformadora do que qualquer outra”, declara. E parece que a transformação já começou. “Os colaboradores da escola levam os filhos ao clube de leitura durante as férias. Eu acho isso lindo. Muitos alunos levam livros para parentes também. Quando vemos isso se espalhando, todo esforço que a gente faz é valido. É um ganho quando a gente considera os índices educacionais do estado”, comemora.
A iniciativa foi reconhecida pelo concurso “As Melhores Ações de Incentivo à Leitura de Alagoas”, organizado pela Editora Paulinas e Independence Consultoria, em agosto. Para aqueles que desejam contribuir, Vanusia continua recebendo doações de livros. Basta entrar no grupo do clube no Facebook (aqui) e manifestar o interesse em ajudar e a escola se encarregará do restante.
Fonte: Todos Pela Educação | Pricilla Honorato




