
A Biblioteconomia enfrenta um desafio que vai muito além da organização de acervos, a desconstrução do capacitismo institucional. Em uma tese orientada pelo professor Frederico Cesar Mafra Pereira do Programa de Pós-Graduação em Gestão e Organização do Conhecimento (PPGGOC) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que articulou justiça informacional e o modelo social da deficiência, o trabalho foi desenvolvido pelo Bibliotecário Alejandro de Campos Pinheiro (CRB-6/3034) na Universidade de Minas Gerais (UFMG) e avaliado pela banca composta por Marília de Abreu Martins de Paiva (CRB-6/2262) e Elisângela Cristina Aganette, da UFMG, Ana Cláudia Borges Campos, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), e Telma de Carvalho, da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e ex-presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia 5ª Região (CRB-5). A pesquisa revela que as maiores barreiras para a inclusão não estão na deficiência em si, mas na estrutura das próprias bibliotecas.
Ao contrário da visão médica tradicional, que foca na “limitação” física ou sensorial, Alejandro baseia seu trabalho no modelo social da deficiência. Para ele, a deficiência é o resultado do embate entre a pessoa e uma sociedade que se recusa a ser acessível. Alejandro explica o seu ponto de vista: “A tese evidencia que a existência de barreiras atitudinais e institucionais contraria os fundamentos do modelo social da deficiência, pois transfere para as próprias pessoas com deficiência a responsabilidade de se adaptar, quando essa responsabilidade é da sociedade, dos gestores, das equipes e das instituições. Assim, reforça-se a necessidade de transformar estruturas, políticas e culturas organizacionais para superar tais barreiras”, afirma.
Um dos pontos centrais da tese é o reconhecimento das Pessoas Bibliotecárias com Deficiência (PBCD) como fontes legítimas de conhecimento. Por serem, ao mesmo tempo, profissionais e usuárias desses espaços, suas vivências conferem uma expertise única para identificar obstáculos e propor soluções de acessibilidade que gestores muitas vezes ignoram. Para Alejandro, isso reflete um processo histórico de silenciamento. “Muitas vezes, essas profissionais não são reconhecidas como parte ativa da força de trabalho. O despreparo das instituições gera perguntas capacitistas sobre ‘como incluir’ ou ‘que atividades delegar’, associando equivocadamente a deficiência à incapacidade”, pontua.
O estudo também questiona por que ainda há tão pouca produção científica sobre o tema na Ciência da Informação. A resposta, segundo a pesquisa, está no capacitismo, que é o preconceito que associa deficiência à incapacidade.
Para fortalecer a valorização das PBCD no mercado, Alejandro propõe estratégias alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Entre as propostas pensadas pelo pesquisador estão a desmistificação do capacitismo, política de gestão e local de protagonismo.
A contribuição da tese de Alejandro Pinheiro nos coloca para pensar e deslocar o olhar da “deficiência como problema” para a “biblioteca como sistema de barreiras”. Ao valorizar a pluralidade de vozes, a Biblioteconomia caminha para uma prática mais justa e sensível, reafirmando que a diversidade humana é, acima de tudo, uma fonte de inovação e justiça social.
Para ler a pesquisa completa acesse o repositório institucional da UFMG.




