O incêndio que destruiu a biblioteca comunitária Casa dos Saberes, em Belo Horizonte (MG), não pode ser compreendido apenas como a perda de uma estrutura física ou de um acervo formado por doações. Trata-se de um episódio de biblioclastia, que atinge diretamente o direito de acesso ao conhecimento e à leitura – pilares fundamentais para o exercício da cidadania, por meio da queima intencional de bibliotecas e seus acervos, impulsionada por ódio, censura, intolerância e aversão à cultura.
Bibliotecas comunitárias representam espaços de convivência, de construção coletiva, de fortalecimento de vínculos e de promoção da autonomia intelectual. Em territórios onde, muitas vezes, o Estado não se faz presente e o acesso a equipamentos culturais é limitado, essas iniciativas assumem um papel estratégico ao aproximar o livro do cotidiano das pessoas e ao estimular práticas culturais, sobretudo em áreas de vulnerabilidade social.
Nesse sentido, a destruição do espaço de um projeto social como a Casa dos Saberes revela não apenas sua importância, mas também sua fragilidade. Mantidas majoritariamente pelo esforço de voluntários, moradores e redes de solidariedade, as bibliotecas comunitárias carecem de políticas estruturadas que garantam sua continuidade, segurança e desenvolvimento. A recorrência de episódios de violência, como o incêndio anterior sofrido pela mesma iniciativa, em 2017, evidencia a urgência de se pensar mecanismos mais efetivos de proteção.
É necessário avançar no reconhecimento dessas iniciativas populares como parte integrante das políticas públicas de leitura e cultura. Isso implica em apoiar e assegurar as condições básicas para sua manutenção: infraestrutura adequada, segurança, mediação de leitura, equipamentos e suporte técnico qualificado, inclusive sob a supervisão de profissionais Bibliotecários.
O Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6) reforça que a valorização e proteção de projetos sociais como as bibliotecas comunitárias devem ser compreendidas como um compromisso coletivo. Poder público, instituições, profissionais e sociedade civil precisam atuar de forma articulada para garantir que esses espaços não permaneçam à margem das políticas culturais, apesar de sua relevância social amplamente reconhecida.
Além disso, episódios como este convidam à reflexão sobre o lugar que a leitura ocupa na sociedade. Quando uma biblioteca é destruída, não se perde apenas um conjunto de livros, perde-se um espaço de encontro, de escuta, de construção de sentidos e de possibilidades. Perde-se, ainda, parte da memória e da identidade de uma comunidade.
Diante disso, mais do que reconstruir fisicamente a Casa dos Saberes, é fundamental fortalecer as bases que sustentam iniciativas como essa. Isso significa investir em sua proteção, ampliar seu reconhecimento institucional e garantir que possam continuar exercendo seu papel transformador de forma segura e contínua.
Proteger bibliotecas comunitárias é, portanto, proteger o direito ao conhecimento e reafirmar o compromisso com uma sociedade mais justa e democrática.
Ajude a reconstruir a biblioteca comunitária
Com o objetivo de revitalizar seu acervo e infraestrutura, a Casa do Saber inicia uma campanha de mobilização social em prol da biblioteca comunitária. A iniciativa busca o apoio de cidadãos e empresas por meio de contribuições financeiras via pix, doações de obras literárias ou apoio voluntário para a reestruturação física do espaço.
Para mais informações, acesse o Instagram da Casa do Saber.




