Nikelen Witter
Minha relação com os livros nunca teve nome. Jamais imaginei que pudesse haver um nome específico. Sou uma leitora, ponto. Desde quando? Mal sei. Não brinco quando digo que lia antes de saber ler e que minha maior ambição na infância era ler um livro todo sem figurinhas. Usei imensamente a biblioteca da escola. Minhas fichas de retirada foram grampeadas apenas uma vez, depois, a bibliotecária passou a usar um clips por conveniência. Não fui instruída nem pela escola, nem pela família a utilizar a biblioteca pública. De fato, só depois de adulta vim saber de sua existência. Por felicidade, meus pais acreditavam que, para livros, não se devia fazer economia. Assim passei a adquirir os que não encontrava na biblioteca ou os que eu retirava em demasia (comprei O Conde de Monte Cristo após tê-lo retirado 18 vezes no ano dos meus 12 anos). Sempre preferi ganhar livros de aniversário. Nunca fiz coleções, a não ser de livros. O resultado é que, por volta de meus 17 anos, eu tinha em torno de 400 livros MEUS. Digo meus por não serem partilhados com ninguém. Não eram livros que meus pais lessem e minha irmã, sendo disléxica, só se tornou a leitora que é hoje, bem mais tarde.
Casei aos 24 anos em comunhão de livros (eu com meus quase 500 e ele com 50, ou seja, fui vítima de um tremendo golpe da estante, mas o cara é bonito e me passou a conversa). Somos meios compulsivos, mas não excessivamente apegados (fazemos doações anuais do que já perdeu o interesse). Temos gostos que se confundem, outros que correm quilômetros em diferença. Como trabalhamos na mesma área, os livros de história são instrumentos de trabalho. Como somos escritores, os de literatura também. Temos uma biblioteca considerável, mas não absurda para nossas atividades. É uma biblioteca de leitura, de trabalho, nenhum livro fica nela para bonito. Invariavelmente todos são ou serão consultados (mesmo que não inteiramente lidos) em algum momento. De qualquer forma, somos esse tipo de gente que pensa qualquer mudança levando os livros. Pensa a casa tomando em conta os livros. Pensa a economia doméstica tendo em conta o que vai adquirir em livros. De fato, raramente achamos um livro caro (o que coloca o resto da economia doméstica sempre em segundo plano). Gostamos de comprá-los, porque os imaginamos úteis, sempre. Faltam roupas, mas não livros novos (ou de segunda mão). Não somos viciados em edições X ou Y (embora eu venha ficando cada vez mais criteriosa com as traduções). Não fazemos loucuras. E não nos achamos melhores do que ninguém por conta disso. Vivemos assim, simplesmente. É um estilo de vida.
Talvez, por sermos tão parecidos, jamais pensamos em dar um nome a isso. A ideia de que, de fato, não conseguimos viver sem estarmos cercados por uma biblioteca é tão natural que se, por algum funesto acaso, a nossa sumisse (bate na madeira), em poucos anos a reconstruiríamos, comprando novos e volumes ou os mesmos (daqueles mais amados e/ou necessários). Aliás, comprar duas vezes o mesmo livro não é incomum. Emprestamos, esquecemos, ou os livros não voltam ou (suprema agressão) voltam detonados. Ontem mesmo re-comprei um que acho que será fundamental para meu novo romance e que não consigo lembrar para quem eu emprestei.
Por outro lado, eu costumo achar, como uma espécie de jogador com crenças transcendentes, que há livros que me chamam, que me abordam e que, mesmo que eu não saiba, um dia me servirão. Aconteceu com A História Continua, do Georges Duby, e com tantos outros que nem consigo lembrar. Outros livros aparecem pra mim como aquele tipo de encontro amoroso de comédia romântica. De repente nos olhamos e… o tempo se suspende e… só existe nós dois e, claro, o caixa, em que eu passo para pagá-lo.
Foi assim com minha primeira leitura terminada em 2014. O livro é Fantasmas na biblioteca. A arte de viver entre livros, de Jacques Bonnet. Estava na Athena Livraria em Santa Maria, ainda em seu endereço antigo, conversando agradavelmente com a proprietária Daniela Kliemman e, de repente, o livro branco saltou nos meus olhos. O título era fabuloso, os livrinhos antigos sobre o fundo claro, atraentes demais. Quase perdi a conversa. Havíamos prometido não comprar mais livros, mas vá… era dia do Livro (um dos vários que se vê comemorado nas redes sociais) e eu não tinha dado nenhum livro para o Guto. Shame on me. Comprei, claro. Fingi que li a orelha, fingi que li a parte de trás do livro. Eu queria o livro e nada poderia me convencer mais a comprá-lo do que isso. Como não ter aquele título entre meu livros sobre leitura e História da Leitura?
Para os leitores contumazes não é incomum encontrar-se em um livro (eu mesma tenho vivido alguns encontros bem reveladores), mas o livro de Bonnet é um tanto mais. Primeiro, ele dá nome a essa compulsão de posse: bibliomania. Não bibliofilia, pois nesse caso há mais cuidado e mais trabalho na aquisição, menos idiossincrasias. É como se ele falasse de uma turma desconhecida a qual desde sempre pertenci. Os problemas com o espaço, as angustias de separação, o sonho de perder-se eternamente em uma biblioteca; a descrição destas, emprestada de Borges, como um paraíso.
Acontece que esta turma, ao que parece, é um grupo em extinção. Não, os livros não vão acabar, mas possuí-los em quantidade? Quem o fará? Quem terá, como Bonnet, 40 mil livros em sua casa? Ou, muito mais modestamente, os 1000 e poucos que possuímos aqui em casa? Com internet, Google, Biblioteca de Harvard on line, Amazon, etc. Quem investirá tanto, com as casas diminuindo de tamanho, o espaço contado nas grandes cidades e o mundo podendo ser acessado de um aparelhinho que cabe na palma da mão?
Sinceramente, acho que prefiro não pensar nisso. Não acho que tal vá ocorrer em minha existência. Se ocorrer, não sei se posso fazer algo para impedir e nem sei se quero. Fico feliz simplesmente em saber que, essa loucura, esse apreço pelos volumes, essa mania de bibliotecas pessoais ao alcance da mão, não é solitária como tantas vezes imaginei.
Além do mais, o livro de Bonnet oferece espaço para reflexões riquíssimas sobre a mágica da leitura. Sobre todo o tempo e o espaço que um livro pode conter dentro de si. Sobre a louca alegria que pode resultar de uma viagem aos confins do universo literário, da qual se pode sair exausto e plenamente descansado. Indico uma bela resenha do livro que saiu noThe New Yorker e, claro, recomendo o livro.
Se os livros conversam entre si eu não sei, mas acho que Fantasmas na biblioteca fará bela figura em minha estante. Ou, então, acabará influenciando os meus livros a se acharem grandes coisas. Afinal, aqui em casa, fantasmas ou vivos, eles são membros da família.
Fonte: Blog da autora




