O jornal O Tempo publicou o artigo de opinião “Quando informação falha, o debate público paga o preço” escrito pelo Presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6), Álamo Chaves (CRB-6/2790), no dia 30 de janeiro de 2026.
O artigo analisa a crise informacional no Brasil, focando na contradição entre a abundância de dados e a dificuldade de gerar conhecimento real. O texto defende que a solução para a desinformação e os desafios da inteligência artificial não é apenas individual, mas passa obrigatoriamente pelo fortalecimento das bibliotecas públicas e da mediação profissional.

Leia o texto na íntegra.
Quando a informação falha, o debate público paga o preço
Álamo Chaves
Presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6)
O Brasil, assim como o mundo, atravessa um paradoxo cada vez mais evidente. Nunca houve tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil transformá-la em conhecimento. O avanço acelerado da Inteligência Artificial amplia esse desafio: textos, vídeos e imagens cada vez mais realistas tornam o ambiente informacional mais ruidoso, confuso e vulnerável à manipulação.
Enquanto a desinformação ganha escala e sofisticação, a capacidade coletiva de interpretar, contextualizar e questionar informações se enfraquece. Nas redes sociais, é cada vez mais comum ver jovens engajados no debate público e seguros da veracidade do que compartilham, não por má-fe, mas por ausência de instrução adequada para lidar com o volume de informações disponíveis e pelo desejo legítimo de pertencimento e participação na vida social.
É um equívoco, no entanto, atribuir esse fenômeno exclusivamente ao uso inconsequente das redes sociais ou ao simples compartilhamento de conteúdos sem fontes confiáveis. O desejo de pertencimento dos jovens revela, na verdade, uma sede por conhecimento, participação e escuta. O problema está menos no comportamento individual e mais em uma falha estrutural profunda: a fragilidade das políticas públicas de informação no país.
O abandono histórico das bibliotecas públicas é parte central desse cenário. Muitos desses espaços foram reduzidos a depósitos de livros, frequentemente com profissionais contratados apenas para cumprir a legislação vigente, mas sem autonomia, infraestrutura ou recursos adequados para exercer plenamente seu papel social. Sem investimento, mediação qualificada e condições de funcionamento contínuas, esses equipamentos deixam de cumprir sua função democrática de formar leitores críticos e cidadãos informados.
Nesse contexto, Bibliotecários são frequentemente levados a “tirar água da pedra” para garantir o funcionamento mínimo desses espaços. Trabalham com estruturas precárias, orçamentos insuficientes e acervos desatualizados, tentando cumprir uma função pública essencial sem as condições necessárias para exercê-la de forma digna e efetiva. O esforço individual, embora louvável, não substitui políticas públicas consistentes nem investimentos estruturantes.
A informação, quando não é mediada, deixa de cumprir seu papel social. Sem curadoria, contexto e educação informacional, ela não emancipa, confunde. O mau uso da informação não nasce da falta de interesse do cidadão, mas da inexistência de ambientes públicos preparados para formar leitores críticos e capazes de lidar com um volume informacional cada vez mais complexo.
Bibliotecas são equipamentos sociais estratégicos para enfrentar a desinformação. Elas oferecem acesso a dados públicos, promovem educação informacional, estimulam o pensamento crítico e funcionam como espaços de diálogo e aprendizado coletivo. Mas essa função só se sustenta quando há compromisso público com sua estrutura e funcionamento.
Sem investimento e sem profissionais, bibliotecas se tornam invisíveis no cotidiano da população e irrelevantes no debate público. Ao negligenciar esses espaços, o país reforça um ciclo perigoso: exige cidadãos críticos, mas não oferece os meios para que essa criticidade seja construída.
O início do ano, principalmente em um ano eleitoral, costuma ser o momento de definir prioridades e caminhos. Se o Brasil pretende enfrentar os desafios da desinformação, da inteligência artificial e da fragilização do debate público, precisa começar pelo óbvio: tratar o acesso qualificado à informação como política pública essencial.
Ignorar o papel das bibliotecas e da mediação profissional da informação não é apenas uma falha administrativa ou cultural. É um erro estratégico que compromete o presente, e o futuro, da sociedade brasileira.




