A Bibliotecária Gracirlei Lima (CRB-6/2899) apresentou o trabalho “Estágio supervisionado e inclusão: relatos da Bibliotecária supervisora e do aluno com deficiência visual”, na última edição do Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias (SNBU), escrito em coautoria com o estudante de biblioteconomia Adilson Severino. O artigo relata a experiência da supervisão de um estágio obrigatório realizado na biblioteca da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no qual Adilson, pessoa com deficiência visual total, atuou como estagiário.
O contato inicial partiu da disciplina de estágio da Escola de Ciência da Informação da UFMG. Adilson enfrentava dificuldades para encontrar uma biblioteca que o acolhesse. Mesmo sem o costume da unidade em receber estagiários supervisionados, a Bibliotecária prontamente aceitou o desafio.
Em entrevista realizada pela coordenadora da Comissão de Ética e da Comissão de Tomada de Contas do Conselho Regional de Biblioteconomia 6º Região (CRB-6), Adrieli Sandra de Oliveira Jacinto (CRB-6/2696), Gracirlei detalha os principais obstáculos enfrentados no processo de adaptação da biblioteca para receber o estagiário.
“Inicialmente, fui informada pela professora de que contaríamos com o apoio do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI), que ofereceria orientações e suporte para a condução do estágio, especialmente porque seriam necessárias adaptações, planejamento cuidadoso e diálogo constante com o Núcleo. No entanto, esse apoio não ocorreu. Diante disso, foi necessária a realização de uma reunião para a elaboração conjunta do plano de estágio, envolvendo a professora, o aluno e eu”, afirma.
Durante o acompanhamento do estágio curricular, surgiram questões relacionadas à acessibilidade e à locomoção autônoma na biblioteca. “Apresentei os desafios enfrentados por mim, enquanto Bibliotecária supervisora, e pelo estagiário – como as barreiras à acessibilidade e locomoção autônoma na biblioteca – , bem como as soluções implementadas, incluindo a preparação dos espaços, o detalhamento das atividades e o acompanhamento constante. Também pontuei as lições aprendidas, destacando a relevância do diálogo e da inclusão no ambiente de trabalho”, explica Gracirlei.
Embora a biblioteca atenda às normas de acessibilidade física, a experiência evidenciou que as principais barreiras estavam nos aspectos comunicacionais e instrumentais. Os softwares de gestão bibliotecária não eram amigáveis a leitores de tela, e o acervo carecia de sinalização em braille. Diante disso, a supervisora desenvolveu estratégias de mediação.
“Diante desse cenário, foi necessário desenvolver estratégias próprias de acompanhamento. Todas as atividades eram narradas passo a passo, com descrição detalhada dos procedimentos. Um exemplo marcante foi o trabalho de guarda de livros: eu descrevia a classificação, o assunto da estante e a organização do acervo, utilizando a Classificação Decimal Universal (CDU), enquanto ele acompanhava e aplicava o raciocínio teórico. Esse processo contribuiu significativamente para a compreensão dos conteúdos da disciplina cursada”, conclui a profissional.
O depoimento também traz uma crítica construtiva às políticas institucionais da Universidade. Se, por um lado, o transporte acessível (Locomove) funcionou de forma adequada, por outro, a falta de equipamentos e de suporte para a digitação do relatório final revelou limitações na efetividade das políticas no cotidiano acadêmico.
Para Gracirlei, o principal desafio atual é transformar políticas em práticas concretas. “Na minha experiência com alunos com deficiência visual, destacaram-se problemas como a incompatibilidade de softwares com leitores de tela, a inexistência de sinalização tátil e em braille e a dependência excessiva de apoio humano para a realização de tarefas que poderiam ser autônomas. A inclusão exige não apenas políticas bem formuladas, mas também investimento, capacitação permanente e diálogo constante com os profissionais que atuam diretamente com pessoas com deficiência. Essas mudanças são fundamentais tanto para usuários da biblioteca quanto para profissionais com deficiência, garantindo igualdade de condições e permanência qualificada na universidade”, conclui Gracirlei.
Para ler o artigo na íntegra acesse: https://portal.febab.org.br/snbu2025/article/view/3612




