Aposentos impressionam pela quantidade de volumes e variedade de estilos

Para o escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984), a literatura é uma “forma de brincar”. Apaixonados por livros desde a infância, o produtor cultural Afonso Borges, o biólogo Humberto Coelho de Carvalho, o publicitário Chico Bastos, a escritora Cristina Agostinho e a professora Maria Esther Maciel levaram bem a sério a brincadeira. Dedicaram bastante tempo – e espaço – para montar sua biblioteca particular, que impressiona não só pela quantidade de volumes como também pela variedade de estilos. Num tempo em que muitos apostam na extinção das obras em papel e no domínio do e-book, eles nem pensam em se desfazer de suas prateleiras abarrotadas. Nelas misturam-se, além de prosa e poesia, um pouco da história de cada um. Os gostos literários são diversos, mas, em comum, os cinco têm duas crenças: que a coleção nunca estará completa e que não será possível, até o fim da vida, ler ou reler todos os livros que desejam.
Organização afetiva
A casa do produtor cultural Afonso Borges, em um condomínio em Brumadinho, foi projetada a partir da biblioteca. Com 15 metros de comprimento, suas estantes não têm livros organizados por ordem alfabética. O critério é a relação de amizade entre os companheiros de uma mesma prateleira. Lado a lado estão, por exemplo, as obras completas de Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, cuja camaradagem durou da juventude até a morte. “Aqui, eles continuam unidos”, diz Borges. Criador do Projeto Sempre um Papo – que promove lançamentos de livros e debates com escritores há 27 anos -, ele revela que os 3 000 títulos mantidos em sua casa é pouco diante da quantidade dos que já ganhou. “Só guardo os prediletos”, explica Borges. Ao longo da vida, ele conseguiu reunir dedicatórias carinhosas de alguns de seus autores mais queridos, como Zuenir Ventura e José Saramago. Está tudo, claro, um pouquinho bagunçado. “Biblioteca superorganizada não tem vida”, afirma.
Projeto de vida
O publicitário Chico Bastos morou em Belo Horizonte por quatro décadas. “Durante todo esse tempo, sonhei diariamente em voltar para minha terra, Ouro Preto, e viver entre livros numa casa no campo”, conta. Em 1998, o desejo se concretizou. Ele passa pelo menos seis horas por dia entre as oito estantes que ficam em um cômodo de 50 metros quadrados no 2º andar de sua casa, em um condomínio. Lá se encontram cerca de 4 000 títulos e 3 000 quadrinhos encadernados. A coleção é uma amostra sentimental de diferentes fases de sua vida. Estão guardados desde o livro didático no qual aprendeu a escrever, o Língua Pátria, até raridades sobre a história colonial mineira, seu principal objeto de estudo atualmente. Dois destaques nesse tema são o exemplar original de 1911 do Bicentenário de Ouro Preto – Memória Histórica e a primeira edição de A História Antiga de Minas Gerais.
Até em japonês
A escritora e professora da Faculdade de Letras da UFMG Maria Esther Maciel lê em inglês, espanhol e francês. Mas, em meio aos 5 000 títulos de sua coleção, há até uma obra em japonês. “Comprei por puro fetiche”, admite, entre risadas. Fã de O Livro de Cabeceira, da japonesa Sei Shonagon, Maria Esther deparou com um exemplar publicado na língua original e não resistiu. O hábito surgiu quando ainda era menina em Patos de Minas. Ela comprava livros e os anotava na conta aberta pelo pai em uma livraria da cidade. Coleções que arrematou na época, como a obra completa de Graciliano Ramos, hoje estão em seu apartamento na Serra e dividem espaço com outras descobertas em viagens, como a bibliografia da escritora alemã Hildegard de Bingen. “Aqui estão meus santos”, diz Maria Esther, referindo-se não apenas a Hildegard, que foi canonizada, mas a todos os seus escritores favoritos, como Carlos Drummond de Andrade.
Tesouros pessoais
Biólogo e professor aposentado da UFMG, Humberto Coelho Carvalho é o tipo de leitor que não abre mão de grifar parágrafos e registrar no cantinho da página suas observações. Na casa onde vive com a mulher, Nísia, no bairro Ouro Preto, a biblioteca é seu reduto solitário. Lá está a metade de seus 6 000 livros – o restante ocupa o sótão. Os escolhidos para ficar em sua área de trabalho e estudo são títulos que considera especiais, dignos de figurar entre os “tesouros pessoais”, como a cópia do convite de noivado dos pais, os retratos dos seis filhos e a máquina de calcular dos anos 50, lembranças que o remetem a outros tempos. As prateleiras abrigam clássicos da literatura e da ciência mundial, como A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e O Desenvolvimento do Pensamento Biológico, de Ernst Mayr.
Caçadora de raridades
Frequentadora de sebos da capital, a escritora Cristina Agostinho está sempre em busca de títulos especiais. E mantém sua caça aos livros também quando visita outras cidades. Sua biblioteca, que ocupa o 2º andar de uma cobertura na Serra, é o resultado do garimpo feito em diversas viagens. Duzentos livros e vários periódicos raros foram trazidos de Cuba, país que é sua paixão. Seu clássico preferido, Dom Quixote, aparece em seis versões, algumas das quais compradas na Espanha e na Argentina. Recentemente, ela adquiriu um tablet e se admira ao pensar que todos os 4 000 livros que a rodeiam poderiam caber ali. Cristina resiste, contudo, a se render aos e-books. “O livro digital não faz companhia como os da minha biblioteca fazem”, diz ela, que, ao se casar pela primeira vez, em 1968, no lugar do anel pediu como presente uma coleção com obras de autores laureados com o Prêmio Nobel. “É melhor do que ouro.”
Fonte: Veja BH | Sabrina Abreu




